Periodicidade semestral - Número 5 - janeiro/julho de 2002
(Página melhor visualizada com a resolução 800X600)
página inicial de apresentação da revista zeroseis



SEÇÃO RESENHA

Acompanhe nesta seção :

1. RESENHA
Do livro A Pedagogia Freinet: Natureza, Educação e Sociedade. escrito pela professora Maria Evelina Pompeu do Nascimento. A resenha foi preparada pela professora: Eloisa Acires Candal Rocha (Esta resenha foi originalmente publicada na revista Pro-posições)

2. CARTA ABERTA PARA CRIANÇAS QUE VÃO À ESCOLA
Autoria de Rosa María Torres, crônica originalmente publica em um jornal doEquador, republicada no livro "Educação e Imprensa", coleção Questões de Nossa Época, n.º 55, São Paulo, Cortez Editora.




A Pedagogia Freinet : Natureza, Educação e
        Sociedade

RESENHA

i. INTRODUÇÃO ii. DESENVOLVIMENTO iii. CONSIDERAÇÕES FINAIS

INTRODUÇÃO

A repercussão do trabalho do educador francês Célestin Freinet no Brasil percorreu caminhos contraditórios, talvez tão contraditórios quanto o próprio conteúdo e contexto de construção de sua obra. Geralmente ausente dos currículos das escolas de formação de professores, mesmo em períodos mais atuais, Freinet sustentou boa parte das iniciativas de consolidação de projetos de educação “alternativa” gestadas sobretudo nas décadas de 70 e 80 na maioria dos centros urbanos brasileiros. Estas experiências, seja  por sua natureza revolucionária, seja pelas próprias estratégias pedagógicas que propunham davam respostas concretas  áqueles que buscavam se contrapor aos tradicionais modelos educativos pautados na individualidade, na submissão e na reprodução de modelos únicos.

VOLTAR AO INÍCIO



DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO

É exatamente neste contexto que a autora situa a sua própria experiência como educadora,       que resultou no trabalho de pesquisa que originou este livro, buscando refletir sobre as bases, as concepções, e as contribuições da pedagogia e do pensamento de Freinet, que como ela bem indica ao iniciar seu trabalho, é “um pensamento construído através de experiências concretas , conselhos práticos, sonhos e reflexões, citações bíblicas, expressões de humor e de poesia”.

Com o intuito de apreender alguns dos conceitos mais recorrentes da obra de Freinet, tais como : natureza, liberdade, trabalho, cooperação, felicidade, harmonia ,  Maria Evelyna organizou este livro de 79 páginas basicamente em três partes : I. A Pedagogia Freinet; II. Educação e História; e, III. Por uma avaliação crítica de Freinet , compostas cada qual de sub-ítens responsáveis por um desenvolvimento mais específico dos temas.

A primeira parte dá ao leitor uma visão geral das técnicas Freinet e de seus fundamentos calcados nas idéias de natureza, de ênfase na sensibilidade e indissociabilidade do individual e do coletivo. Por sua trajetória de vida marcada pelo contexto social e político de seu tempo, pós-guerra e fortalecimento de regimes totalitários, Freinet constrói um projeto educativo original criando ações pedagógicas baseadas no trabalho, na vida, na construção e na cooperação. Para ele era preciso captar a vida das crianças tornando a educação significativa  com técnicas que  possibilitem a entrada  da realidade social  na escola, pois “só a vida educa”. Daí suas técnicas pedagógicas,  da aula-passeio e do texto-livre à imprensa e a correspondência inter-escolar serem pautadas na liberação do pensamento e da criatividade,  nascerem também da sua experiência vivida e não de uma formação acadêmica.

Ao orientar-se pela idéia da “prática a partir da vida”, como bem identifica a autora, Freinet pretende a exemplo de Rousseau “formar o homem de amanhã em contato com a natureza”, colocando na educação- no artificial- o caminho para a volta à harmonia do “Estado de Natureza”. Para ele este processo se concretiza pelo trabalho como uma das condições da vida, da própria natureza.

A segunda parte do livro voltou-se para o aprofundamento das bases conceituais sobre as quais se fundaram os projetos de educação e sociedade que Freinet almejou consolidar, numa constante oscilação entre o utópico e o concreto. Ao caracterizar aquilo que chamou de “o idealismo de Freinet”, a autora reconhece a utopia deste educador  ao vislumbrar uma nova estrutura de escola que possibilitaria a  instauração de uma  sociedade mais justa . Esta expectativa corresponde aquela que recentemente temos visto ser delineada por educadores que mantêm a esperança em reorientar a contribuição da escola para a construção do novo: “ao mesmo tempo que é vista como reprodutora das relações sociais, ela é um espaço onde as contradições se manifestam”. Todavia em Freinet esta superação não se situa no plano social  mas nas próprias aptidões individuais, que poderão via a cooperação desenvolver sentimentos básicos para a convivência democrática, pretendendo ao extremo como fizeram muitos dos educadores românticos , fazer da escola uma micro-sociedade em harmonia, que acarretaria numa melhoria da  sociedade como um todo.

De fato  aquilo que para Freinet se consolidará como a própria  “Pedagogia do Bom-Senso”, desconsidera as estruturas sociais que extrapolam as virtudes e a harmonia que possam pretender os indivíduos, e  acabam por configurar-se num projeto educativo próximo a um resultado “surrealista’. Por outro lado viabiliza ações pedagógicas que concretamente conseguem instalar formas absolutamente antagônicas às tradicionais, fundamentando-se “nos meios de vida e de trabalho do meio não escolar, ou seja do meio vivo”.

A visão de uma pedagogia voltada para a vida e orientada por uma idéia de natureza infantil, já amplamente discutida por Bernard Charlot em sua obra “Mistificação Pedagógica” é identificada pela autora em Freinet como uma concepção de igualdade, própria do Estado de Natureza. Assim como o fazia Rousseau,  Freinet aposta na infância, com sua bondade inerente, e na educação, via o educador,  para  combater a sociedade corrompida, pois também para aquele, o homem das luzes será capaz de manter o equilíbrio entre o “amor de si ” e a “piedade”.

VOLTAR AO INÍCIO


CONSIDERAÇÕES FINAIS
 

Na parte final a autora faz valer um profícuo diálogo com diferentes interlocutores ( e com ela mesma),  revelando uma análise onde ao mesmo tempo,  a familiariedade e o distanciamento permitem uma visão lúcida e desmistificadora.

 Desmistificadora quando permite descortinar o lugar da infância idolatrada, que contudo não ocupa no projeto pedagógico de Freinet um lugar de atuação social compartilhada com o adulto, mas sim a ele subordinada. Desmistificadora também,  quando aponta para a insuficiência de modelos éticos e pedagógicos dissociados do que caracteriza a própria organização social em um determinado tempo histórico, acabando por estabelecer modelos com princípios “abstratos e universalmente aplicáveis”.

Lúcida,  sobretudo por afirmar toda pedagogia como social e ideológica, e por reconhecer na Pedagogia Freinet “um projeto que se a princípio acredita na escola como um espaço onde as contradições se manifestam, podendo contribuir para a formação de um “novo”homem , no interior da “nova” sociedade socialista. Este projeto inicialmente orientado pela noção de trabalho como meio para a “escola do povo”,acaba por definí-lo como como necessidade natural: “meio pelo qual progridem todos os seres vivos”.

Por fim, a autora estabelece uma interessante identificação da utopia de democracia e paz em Rousseau e Freinet, apontando deste prisma uma contribuição para o que definiu como uma “educação conforme os direitos humanos”, uma vez que Freinet admite a ambiqüidade como direito humano a ser concretizado no cotidiano escolar nas relações entre liberdade / disciplina ; educação / trabalho ; cooperação e individualidade consciente.

Percorrer esta leitura propicia a todos  os interessados em educação estabelecer um diálogo com suas próprias perspectivas educativas e sociais, especialmente aos educadores quer atuem na escola ou fora dela.

VOLTAR AO INÍCIO



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

Nascimento, Maria Evelyna Pompeu do. A Pedagogia Freinet : Natureza, Educação e
Sociedade. Campinas, S.P: Editora da UNICAMP, 1995.
 


VOLTAR AO INÍCIO DA RESENHA



2. CARTA ABERTA PARA CRIANÇAS QUE VÃO À ESCOLA.
autoria de Rosa María Torres, crônica originalmente publica em um jornal do
Equador, republicada no livro "Educação e Imprensa", coleção Questões de Nossa
Época, n.º 55, Cortez Editora.


Querido menino ou menina !


Há uma série de coisas que você deve saber e que vou explicar nesta
Pequena carta. Para saber o que é que você deve fazer na escola, e o que é que
você deve pedir dela, de seus professores e colegas.

Certamente você já deve ter ouvido repetidas vezes o que você deve
fazer, ou seja, suas obrigações: comportar-se bem, respeitar professores e
colegas, fazer os deveres de casa, ter os cadernos em ordem e em dia com a
matéria, cuidar do asseio pessoal, ser amável com todos. Isto tudo é correto e
você deve tentar fazê-lo. Mas aqui vamos falar agora não das obrigações que
você já conhece, mas do que os outros devem fazer por você. Ou seja, vamos
falar dos direitos que você tem.

Ninguém pode maltratá-lo por ser criança. Ninguém pode puxar suas
orelhas, bater em você ou machucá-lo. Ninguém pode rir de você, humilhá-lo,
envergonhá-lo em público, mandá-lo ficar de pé num canto ou agir de
forma grosseira com você. As crianças devem ser bem tratadas, queridas e
respeitadas. Você deve ir feliz para a escola, tranqüilo, sem medo. As
pessoas mais importantes da escola são as crianças, não os adultos.

Ninguém pode maltratá-lo por ser pobre. Ser pobre não é pecado. Também
o seu professor ou professora provavelmente é pobre. Em nosso país, a maioria
Das pessoas são pobres. Em todo o mundo, a maioria das crianças são pobres
e a maioria dos pobres são crianças. Você não é culpado disso. Se há tantos
pobres no mundo, é porque há injustiça. É a nossa sociedade que está
mal, não você. É nossa sociedade que deve envergonhar-se, não você.

Ninguém pode maltratá-lo por ser mestiço, índio ou negro. Todos os
latino-americanos têm algo de mestiço, de índio ou de negro. Em nosso
continente, a maioria da população é mestiça, embora às vezes nem
pareça.

Assim, não temos do que nos envergonhar: todos merecem o mesmo
respeito.

Ninguém pode maltratá-la por ser mulher. Meninos e meninas, homens e
mulheres, somos todos iguais, temos as mesmas capacidades. Não permita
que a deixem para trás, que a obriguem a conformar-se com o mínimo, que
ofereçam vantagens fáceis por ser menina, que consintam e impeçam que você se
desenvolva por si mesma. Não se deixe convencer de que as mulheres são
inferiores aos homens, porque isto não é verdade.

Ninguém pode maltratá-lo por ter um defeito físico. Ter um defeito
Físico não é algo terrível e nem é culpa sua. Por causa disso você não é uma
criança anormal. Crianças cegas, surdas, mudas, ou com alguma doença
grave podem aprender se lhes for dedicada maior atenção e amor. As crianças
com problemas, e precisamente por isso, devem ser tratadas com consideração
especial.

Ninguém pode maltratá-lo por você ser de outro lugar. Ninguém deve
fazê-lo sentir-se mal por você ser de outro país, cidade ou povoado. Talvez
você seja um pouco diferente dos demais por falar outro idioma, ter outro
sotaque, ter outros gostos e hábitos e outras idéias. Mas ser diferente
não é um problema. Todos precisamos aprender a compreender e respeitar o
que é diferente de nós. Não permita que façam você se sentir estrangeiro,
especial ou estranho: você tem os mesmos direitos que todos os outros.

Ninguém pode maltratá-lo por não aprender rápido. Cada criança é
diferente e aprende de maneira diferente. Uns aprendem mais devagar que outros. Uns
são bons em algumas matérias, outros em outras. Se você não aprende rápido,
talvez o problema não seja seu, mas de quem ensina e de como ensinam
você.

Ninguém pode aprender se não entender, se não encontrar o gosto ou a
utilidade do que lhe ensinam, se o ameaçam e castigam constantemente.

Não se deve aceitar que alguém chame você de bobo, ignorante ou incapaz. Se
você não entender, pergunte. Você tem o direito de perguntar, direito de que
expliquem e ensinem a você. Para isso é que serve a escola. Para isso é
que servem os professores.
Querido menino ou menina: a escola foi feita para que as crianças
estejam
juntas, brinquem, aprendam e se sintam felizes. Se você se sentir
triste, se
sentir mal, é a escola que vai mal, não você.
Querido menino ou menina: não permita que somente o lembrem de suas
obrigações. Reclame por seus direitos. Aprenda a defender seus direitos
desde criança para que assim você possa defendê-los melhor quando
crescer.

voltar ao início da carta aberta...


VOLTAR AO INÍCIO DA SEÇÃO RESENHAS

CONVIDAMOS VOCÊ PARA NAVEGAR
PELA NOSSA REVISTA


Resenha

Entrevista

Cotidiano

Artigos

Curiosidades

Colaboradores



 Visite o
Núcleo de Estudos
e Pesquisas
da Educação de 0 a 6 anos
MenuHOME

Número 1

Número 2

Número 3

Número 4
 

Participe da lista de discussão sobre a infância.

VEJA COMO!!!



EXPEDIENTE

A revista Zero-a-seis propõe-se a ser um espaço de divulgação das atividades de estudo e pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Educação de 0 a 6 anos. O material que circula aqui tem sido produzido por professores, alunos de graduação e de pós-graduação, professores da rede e outros colaboradores.
As seções deste número foram organizadas pelo prof.  João Josué da Silva Filho, responsável também pela criação do lay-out das páginas e pela edição na internet. Os textos foram produzidos por pesquisadores, mestrandos e professores vinculados ao NEE0A6 e outros colaboradores, os quais estão nominadas em cada matéria específica.
Cooperaram com a organização as profas. Eloisa A.C. Rocha e Ana Beatriz Cerisara que ajudaram a discutir os temas e selecionar os assuntos.


VOLTAR AO INÍCIO DA PÁGINA


Webmaster:
Prof. João Josué da Silva Filho