Estudo autônomo com a ajuda de novas tecnologias no ensino comunicativo de línguas estrangeiras

 O trabalho abaixo foi apresentado no VIIIº ENDIPE (Encontro Nacional de Didática e Prática do Ensino), dia 7 a 10 de maio 1996, na Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, e será publicado nos anais do evento.

Resumo

O trabalho visa situar o lugar do uso dos recursos das novas tecnologias dentro da área de ensino de línguas estrangeiras através de um breve resumo crítico do desenvolvimento de sua metodologia, fundamentando o conceito de estudo autônomo dentro de uma abordagem "comunicativa" moderna, tendo o aluno ativo e emancipado como parceiro com direitos iguais e responsabilidade pelo seu processo de aprendizagem. A segunda parte mostra as várias possibilidades do uso das novas tecnologias como parte integral do ensino de línguas estrangeiras.

 Die folgende Arbeit wurde als Beitrag auf dem VIII. Nationalen Treffen für Didaktik und Unterrichtspraxis ( ENDIPE) vom 7. bis 10. Mai 1996 an der Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC vorgetragen und wird im Sammelband aller Beiträge zu diesem Kongreß veröffentlicht.

Resumé

Die vorliegende Arbeit verortet zunächst den Einsatz der Neuen Medien innerhalb der Fremdsprachendidaktik mit Hilfe eines kurzen kritischen Rückblicks über die sukzessive Entwicklung ihrer methodischen Ansätze und diskutiert die Rolle des Selbstlernens in einem modernen "kommunikativen" Ansatz, der den aktiven und emanzipierten Lerner als gleichberechtigten und mitverantwortlichen Partner seines eigenen Sprachlernprozesses ansieht. Der zweite Teil zeigt verschiedene Möglichkeiten des Einsatzes der "neuen Technologien" als integralen Bestandteil eines modernen Fremdsprachenunterrichts.

Estudo autônomo com a ajuda de novas tecnologias no ensino comunicativo de línguas estrangeiras

Markus J. Weininger,
Professor de Alemão/UFPR,
Doutorando em Lingüística Aplicada/UFSC
e-mail: markus@mbox1.ufsc.br ou
markus@humanas.ufpr.br

Nos anos 90, os processos de globalização econômica e cultural continuam em ritmo acelerado e os seus resultados estão ficando cada vez mais palpáveis. Um deles é a necessidade de competências específicas em línguas e culturas estrangeiras para segmentos profissionais mais variados, muito além das áreas tradicionalmente ligadas ao comércio internacional. Em quase todos os setores da sociedade e economia cresce a pressão de acompanhar as atuais tendências globais da área, para não perder terreno no âmbito competitivo da economia mundial, onde a obrigação de aumentar a produtividade elimina milhares de postos de trabalho menos qualificados a cada dia. Portanto, durante as últimas três décadas, conhecimentos em línguas estrangeiras tornaram-se imprescindíveis, para os indivíduos tanto quanto para as empresas.

Existem vários modelos de política educacional para aumentar a competência média em línguas estrangeiras. Um dos mais recentes, amplamente divulgado na União Européia com amparo em diversos programas (como LINGUA ou ERASMUS), defende que cada cidadão deveria ter competência passiva em - no mínimo - mais dois idiomas da comunidade, fazendo com que a maioria pudesse comunicar-se com os vizinhos, cada um formulando em seu idioma e o outro entendendo o suficiente para garantir a comunicação oral e escrita.

Mas não há apenas esforços políticos neste sentido, também dentro do próprio desenvolvimento das metodologias e abordagens didáticas, sente-se nitidamente a tentativa contínua de ganhar mais eficiência no binômio ensino-aprendizagem de idiomas. Um breve resumo crítico das principais ondas metodológicas serve, por um lado, para entender melhor os desdobramentos consecutivos no caminho da nossa disciplina desde a Segunda Guerra Mundial até hoje e, ao mesmo tempo, para definir o estado atual neste caminho. Por outro lado, traz alguns pontos de vista chaves que podem servir de referências teóricas para o uso das chamadas "novas tecnologias" no ensino de línguas estrangeiras.

Resumo crítico do progresso metodológico do pós-guerra

O método de gramática e tradução

O método mais tradicional, baseado nas filologias clássicas, pode ser chamado de método de "gramática e tradução". O nome já indica os principais pilares desta abordagem: uma progressão linear de unidades gramaticais, partindo do morfologicamente simples para chegar no morfologicamente mais complexo, independente da complexidade semântica de uma estrutura ou suas implicações pragmáticas.

A gramática é dada de forma exclusivamente dedutiva, por regras escritas (muitas vezes pouco produtivas) e venerada de maneira quase estética, sem considerar a sua função comunicativa. (Em uma palestra sobre formalismo e funcionalismo no 1º Encontro do CelSul em Florianópolis no ano passado, Robert de Beaugrande - autor reconhecido internacionalmente na área de lingüística textual - caracterizou esta gramática tradicional como "coletânea de respostas impossíveis a perguntas irrelevantes".)

A tradução dos textos de cada lição acompanha as porções de gramática. A progressão lexical é relativamente suave, uma vez que o vocabulário "canônico" é definido pelos autores do método, sem nenhuma preocupação com sua frequência de uso ou a sua importância comunicativa. Predomina o sistema abstrato da língua alvo, não o seu uso concreto (langue em vez de parole). Os textos que ilustram as estruturas morfosintáticas são exclusivamente referentes à variedade escrita ou até literária do idioma alvo, mesmo quando se trata de "diálogos", escritos pelos autores. Na maioria dos casos, estes textos não são autênticos. Em primeiro lugar, os autores não encontram nenhum texto real que mostre 15 subordinadas relativas em apenas 10 linhas, e depois, textos autênticos trazem muito vocabulário "desconhecido". Como a preocupação desta linha didática é passar o vocabulário "canônico" e não desenvolver estratégias de lidar com material desconhecido, os autores "redigem" os textos, na intenção de facilitar a compreensão. De fato, muitas vezes ocorre o contrário:

O texto perde a funcionalidade comunicativa: a intenção verdadeira do texto é abrigar determinadas estruturas morfosintáticas e não interagir com o destinatário. O texto é alienado e esvaziado de conteúdo.
O texto perde muitos dos elementos que constituem a sua textualidade, coerência e coesão, como elementos referenciais (dêiticos, pronominalizações, isotopias, redundâncias etc.), progressão tema-rema, topicalização, segmentação em grupos lógicos etc.
A atenção do destinatário é redirigida para o meta-nível do sistema lingüístico, com sensível perda de motivação.

O resultado é que o texto "simplificado" se torna muito mais difícil, por ser artificial e esvaziado de sentido. Nas aulas predomina a língua materna. Com a tradução de e para o idioma novo, o aluno mantém uma cômoda e considerável distância mental da língua e cultura alvo.

As metodologias de ensinar línguas estrangeiras sempre estão sujeitas às modas e ao espírito de cada época - ao "Zeitgeist" como se diz em alemão. O método de gramática e tradução dos anos 50 segue os moldes comportamentais da reconstrução do Pós-Guerra: "Ohne Fleiß, kein Preis" (= Sem sacrifícios não há resultados). O professor é a autoridade máxima do processo. Todo processo depende dele. A teoria de aprendizagem é 100% cognitivista. Os alunos estudam decorando regras e listas de vocabulário, assim adquirindo conhecimentos te&oactte;ricos sobre o sistema lingüístico alvo, que os prepara bem para passar em provas escritas. Porém, mesmo depois de vários anos, mal sabiam manter uma comunicação oral básica de mais de um ou dois minutos por falta de competência de compreensão e expressão oral. A competência de leitura era razoável, devido aos longos exercícios de tradução, porém demorada. A expressão escrita era dotada de grande destreza ortográfica, porém marcada pela falta de naturalidade.

Os métodos audiolinguais

Os métodos da próxima fase mostram uma reação drástica com uma virada de 180 graus: a gramática foi decretada o vilão culpado pela falha dos métodos anteriores e, conseqüentemente, banida das aulas. A língua falada substitui quase totalmente a variação escrita. A aula, de repente, é 100% monolingual. Na forma mais pura, não existe livro. O método baseia-se em materiais visuais (painéis, posters, slides, filmes 8mm, vídeo) acompanhados de áudio (voz do professor, disco vinyl, rolo, fita cassete). O aluno era induzido a associar certas seqüências sonoras a determinadas situações (visualizadas pelo material) e incentivado a repetí-las, sem se preocupar muito com o significado exato dos ítens e, muito menos, com a gramática, cujas formas eram tratadas como vocábulos ou expressões idiomáticas. A teoria de aprendizagem subjacente era o behaviourismo puro que se juntava ao espírito dos anos 60, da confiança total na tecnologia como remédio para tudo. É a época dos laboratórios de língua. O processo de aprendizagem é previsível e programado. Acreditava-se na equação input = output, em outros termos: os autores do material e o professor controlam em 100% a aprendizagem. Desta forma, um aluno que só ouve estruturas corretas e as repete em infindáveis pattern-drills virtualmente não conseguiria cometer erros na produção, porque este erro também deveria ser "aprendido", ou seja, gravado com um condicionamento baseado em estímulo e reforço.

A abordagem audiolingual existe em muitas formas mistas, com livro de textos - "diálogos", acompanhados de ilustrações (foto-) gráficas. Em geral, com os livros volta também a gramática, numa progressão concêntrica, isto é, apresentam-se algumas das formas mais usadas de um paradigma, para completá-lo só numa segunda rodada, em um nível posterior. Permanece a artificialidade do material lingüístico exposto, os diálogos ainda servem de veículo para passar a gramática.

Os resultados desta linha eram encorajadores na área de compreensão e expressão oral. O aluno começava logo a "falar" no novo idioma. A escrita ficava ausente e a leitura precária. Como o behaviourista acredita que seu método científico é capaz de ensinar um piriquito a andar de patins, também será possível fazer um aluno falar línguas estrangeiras com a mesma destreza. Com isso, o papel do professor mudou do "sábio no palco" para o "domador de circo" que adestra os seus alunos. Repara-se que ambos os papéis são extremamente autoritários e deixam o aluno numa posição hierarquicamente submissa, num estado de menoridade permanente.

Contudo, a abordagem tecnicista e científica trouxe alguns benefícios para a nossa disciplina: a tentativa de analizar e documentar os processos de sala de aula em extensas pesquisas de campo e, decorrente disso, a ênfase no treinamento do professor com novas tecnicas mais criativas (micro-teaching, team-teaching etc.), e, principalmente, a emancipação da língua falada, com todas as suas "impurezas".

A "revolução comunicativa"

O embasamento teórico dos métodos "comunicativos" encontra-se na speech act theory (teoria dos atos da fala), esboçada primeiro por Austin/Searl em: How to do things with words, e, no âmbito sociológico e filosófico, em Jürgen Habermas e seu conceito da competência comunicativa como base para uma renovação da democracia representativa e pluralista (Theorie des kommunikativen Handelns, Teoria da ação comunicativa). Conforme ao espírito dos anos 70, o objetivo principal era emancipatório: dar ao aluno as ferramentas lingüísticas necessárias para defender seus interesses num ambiente veiculado pela língua alvo. Programas integrativos de cursos para a aquisição de L2 por imigrantes de trabalho menos favorecidos deram início à abordagem comunicativa (latinos e asiáticos nos EUA, indianos na Grã-Bretanha, árabes na França e turcos, gregos e iugoslavos na Alemanha). A progressão dos métodos, finalmente, não seguiu mais uma linha meramente morfosintática e sim uma sucessão de atos da fala básicos como "fazer contato com uma pessoa desconhecida", "pedir informações", "formular uma reclamação", "descrever processos", "dar instruções" etc. De certa forma, as duas linhas andam conectadas, no sentido que há afinidades entre determinados atos da fala e unidades gramaticais (pedir informação ~ interrogativa; dar instruções ~ imperativo; descrever processos ~ passiva etc.), importante, porém, era que as estruturas gramaticais estavam a serviço da intenção comunicativa e não mais vice-versa. A tarefa do professor era de criar pequenas situações comunicativas e provocar uma necessidade de interação, que só podia ser satisfeita através das estruturas lingüísticas por ele introduzidas. A qualidade da aula comunicativa era medida na porcentagem de participação dos alunos no diálogo de aula, sempre evitando o uso da língua materna.

Na prática, também a abordagem comunicativa encontrou vários problemas. Em primeiro lugar ela não deixa de ser autoritária, apesar da intenção emancipatória e democrática, na medida em que decreta de forma paternalista a necessidade de emancipação, suas áreas e instrumentos - e seus limites, principalmente em relação a tudo que acontece na sala de aula. Um outro é que a partir de um certo nível não existe mais hierarquia entre os atos da fala que possa estruturar o processo de aprendizagem. Outro, mais grave, é que o aluno estava sendo bem preparado (com a encenação situativa e interativa de atos da fala) para algumas situações cotidianas. Só que, na vida real, elas não ocorriam exatamente assim como na aula. Ele era obrigado a pular de uma situação para a outra como se fossem ilhas seguras no oceano da comunicação. Infelizmente, estas ilhas não eram muito povoadas, ou seja, o interessse dos parceiros de comunicação de se limitar a elas era pequeno. Faltava flexibilidade e competência de adaptação às necessidades sempre diferentes da comunicação real. Como a escola anterior, a abordagem comunicativa não desenvolve de maneira satisfatória as habilidades de leitura e expressão escrita. Muitos dos métodos careciam de uma sistematização da gramática, deixando uma lacuna a ser preenchida pelo professor, muitas vezes, com o material e a didática que ele experimentou 20 anos antes como aluno da língua alvo.

Os métodos nocionais - funcionais

Durante os anos 80, a abordagem comunicativa teve uma redefinição, sempre na busca de aperfeiçoar os resultados do ensino de línguas estrangeiras. Em vez de ser baseado apenas na teoria dos atos da fala, o método nocional-funcional (Wilkins: Notional Syllabusses, London 1976) segue uma progressão de noções básicas da condição humana, como: existência, tempo, espaço, relações, qualidade, quantidade etc., reproduzindo no processo de ensino toda a nossa organização mental do mundo. Cada unidade trabalha uma área nocional, dando estruturas gramaticais e lexicais necessárias. Novamente, existe uma afinidade entre as noções e o material lingüístico para realizar intenções comunicativas dentro delas. A grande vantagem sobre a abordagem apoiada apenas em atos da fala é que agora há muitos menos limitação a determinadas situações. O material lingüístico apreendido pode ser reagrupado e adaptado às necessidades comunicativas com mais facilidade.

A situação atual

Até hoje, todos os novos métodos se chamam comunicativos, como no mundo da política todos os governos se autointitulam democráticos, independente do conteúdo atrás deste rótulo. Nos anos 90, o espírito holístico prevalecente redefiniu o significado de "comunicativo". Antes, era denominador comum para métodos que visavam treinar o aluno com diferentes recursos situativos para vencer o desafio da comunicação coloquial e cotidiana na língua alvo. Agora entende-se com isso uma verdadeira comunicação entre docente e discente. Antes de mais nada, o professor é parceiro no processo de aprendizagem, não "mestre". O eixo ensino-aprendizagem deixa de ser a mão única no sentido do professor passar conhecimentos bem elaborados para o aluno que, por sua vez, tem a obrigação de assimilá-los com dedicação e sem críticas.

A "construção interativa de conteúdos" na sala de aula exige uma comunicação autêntica entre todos os participantes do processo. Isto, entre outras coisas, significa que o professor não deve responder a perguntas que ninguém fez, que ele não deve fazer uma pergunta temática apenas para verificar se o aluno usa a forma sintática correta. A comunicação dentro da sala de aula não deve se restringir a uma simulação de situações da vida real. Ela já é uma oportunidade real para dar os primeiros passos no novo idioma em um espaço protegido e solidário (porque não há sanções em caso de falhas) e privilegiado (porque o professor está do lado com ajuda diferenciada onde for necessário). Mas isto exige uma participação autêntica da parte de todos. A comunicação de aula é uma troca onde todos (inclusive o professor) aprendem. Principalmente o professor deve assumir esta posição de participação verdadeira, para estimular e motivar seus alunos a superarem a barreira inicial de comunicar seus pontos de vista na língua estrangeira. Embasado na linha construtivista, é importante afastar um pouco a intenção de aprender o idioma e gerar atividades (projetos, trabalhos em grupo, jogos etc.) que exigem as habilidades lingüísticas (o tradicional conteúdo da aula) como instrumentos para obter êxito na perseguição de outros objetivos. No momento em que os alunos "esquecem" que estão trabalhando (falando, lendo, escrevendo) na língua alvo é que eles mais aprendem. Isso em mente, a editora alemã Langenscheidt lançou em 1994 um método (Die Suche = a busca) baseado em uma novela, escrito para este fim pelo grande romancista Hans Magnus Enzensberger. O aluno esquece que seu livro é didático. Ele absorve as estruturas lingüísticas para poder seguir a trama fascinante.

Hoje, o aluno não deve ser mais mero objeto do processo de aprendizagem e dos esforços do professor, empenhado em aplicar "vacina" lexicográfica e "injeções" sintáticas em alta dosagem diretamente no cérebro dos estudantes, para deixá-los aptos a enfrentarem os desafios da comunicação autêntica no novo idioma. Em vez disso, o aluno deve ser o sujeito consciente e responsável do seu próprio processo de aprendizagem. O ensino atual não privilegia mais o professor, nem o seu material (livro). O aluno, com seus interesses e suas necessidades comunicativas, está no centro do ensino de línguas. A aula realmente comunicativa não prescreve nem proibe os assuntos de discussão - desde que sejam ocasiões para exercitar e expandir a competência na língua alvo. A própria língua estrangeira, as dúvidas e experiências do processo de aprendizagem podem e devem ser tematizados pelos alunos. Nada mais anti-comunicativo que proibir falar sobre gramática enquanto o aluno sente uma grande necessidade de discutir este assunto. A verdadeira abordagem comunicativa aceita fases cognitivas, quando o aluno procura por isso. Para haver um diálogo sobre este assunto, o professor deve procurar saber responder à pergunta mais importante e construtiva do aluno: "Por que?", e evitar a resposta autoritária tradicional "Porque é assim e ponto! Tem que decorar!"

Antigamente, o professor estava no centro da aula. Pela experiência e proficiência dele determinava-se tudo: o conteúdo, a didática, a metodologia e o ritmo das aulas ministradas. Professor bom - aula boa. Na época dos métodos audiolinguais e, posteriormente, na "primeira revolução comunicativa", o material providenciado pelos livros, discos, slides, fita cassetes, vídeos etc. estruturava todo o processo de ensino. Assim, cumpria a sua função o professor que conseguia "dar" a quantidade de lições, unidades, páginas do livro etc. dentro do prazo preestabelecido (um ano, um semestre, "n" aulas). O material ocupava a posição central do processo de aprendizagem. Ao professor cabia apenas o papel de um técnico que sabia administrar o pacote de maneira satisfatória. Esta fase era caracterizada por uma falta de confiança nos professores e uma forte tendência ideológica da parte dos autores de métodos. Material bom - aula boa.

O aluno no centro do processo de ensino, não significa que ele passe a ditar o conteúdo da aula, ainda menos que a função do professor seja esvaziada, muito pelo contrário. A "emancipação" do aluno como participante com direitos iguais traz novas responsabilidades e novos papéis para aluno e professor: em primeiro lugar, exige mais competência e flexibilidade do professor, que deve se adaptar aos mais variados tipos de grupos. A "aula modelo" deixa de existir. Um curso de língua estrangeira deve ser ministrado "sob medida". A responsabilidade do professor é que os alunos consigam atingir o máximo do conjunto de objetivos individuais que motivou-os a ingressar no curso. Não se trata apenas de transferir conhecimentos, mas sim de construir competências lingüísticas e culturais da língua alvo. Para isso, ele deve escolher os materiais, a linha didática, o ritmo etc. apropriado para esse fim e monitorar minuciosamente o êxito e a progressão de cada aluno. Isso dá mais liberdade ao professor - e mais responsabilidade ao mesmo tempo. O papel do aluno também muda sensivelmente: ele ganha mais direitos de participação, mas ao mesmo tempo a obrigação de assumir sua parte de responsabilidade pelo seu próprio processo de aprendizagem. Não pode ficar mais no papel passivo de cruzar os braços e "consumir" a aula do professor como se fosse um programa de TV, para decorar o conteúdo em casa com a finalidade de reproduzí-lo mais tarde. As suas atividades autônomas são as pedras que constroem o edifício de sua (futura) competência lingüística. Interação e colaboração boas - aula boa.

Em termos de metodologia, a abordagem holística evita privilegiar de maneira ideológica e doutrinária uma ou outra abordagem. No desenvolvimento da nossa disciplina, todas as fases contribuíram com elementos e técnicas importantes para o ensino, sempre corrigindo erros e compensando falhas da etapa anterior para melhorar o desempenho dos alunos. Não convém cair sempre de novo de um extremo em outro. Durante o processo complexo de aprendizagem existe necessidade de fases cognitivas e de imersão, de repetição e de criatividade. O papel do professor é gerar e gerenciar todas estas atividades, escolher a estratégia e o material certo para o momento certo. Isto exige uma qualificação cada vez maior. Ele deve conhecer e saber usar todas as abordagens e recursos (em termos de material e de tecnologia) para poder tirar o melhor proveito para os seus estudantes. A compensação para o maior esforço do professor é que cada aula é diferente da outra (porque os alunos são sempre diferentes). Assim, ele evita cair no desânimo da rotina frustrante e mantém sua satisfação profissional com o desafio constante de confeccionar uma aula "sob medida" para os seus alunos que sempre reconhecem este esforço e retribuem com motivação, trabalho e resultados muito acima da média.

O estudo autônomo - parte integral do ensino comunicativo de línguas

No ensino de língua estrangeiras centralizado no aluno (e não no professor ou no material) que é parceiro autônomo no processo de aprendizagem, o professor não tenta limitar as atividades do aluno à sala de aula, nem por querer controlar melhor o processo ("input = output") nem por resignação ("meus alunos não fazem a lição de casa"). As duas posturas são caracterizadas por uma desconfiança profunda do aluno, que acaba deixando-o numa posição muito cômoda e passiva, altamente contraproducente para o objetivo em comum. O aluno deve ser sempre incentivado a procurar input na língua alvo também fora da aula onde puder (música, filmes na versão original, revistas e jornais, TV a cabo, Internet etc.) para aumentar seu contato com a língua e cultura em questão.

Gerar atividades autônomas começa dentro da sala de aula. Em geral, os alunos ainda precisam aprender como aprender. Para familiarizá-los com uma postura mais autônoma, o professor deve levar seus estudantes gradualmente a formas de exercícios mais independentes e familiarizá-los com o uso autônomo de equipamentos das chamadas novas tecnologias (vídeo, computador, telemática). Em vez de ser dirigido em rédea curta, o estudante acostuma-se a tomar uma parte mais ativa e responsável já dentro da sala de aula, que encontra sua continuação e complementação orgânica em espaços como um laboratório de línguas ou de vídeo, numa sala de computadores, numa mediateca ou em casa.

Evidentemente, há uma heterogeneidade, às vezes grande, dentro de cada grupo de alunos, em vários sentidos: os interesses e as necessidades podem divergir. Alguns alunos precisam mais de expressão escrita, outros de expressão oral, terceiros de proficiência em leitura de textos técnicos. Além disso, mesmo num grupo totalmente homogêneo no início do curso, abre-se uma divergência inevitável entre os alunos mais aptos, acostumados com estudo de língua estrangeira ou com conhecimentos anteriores e os menos talentosos, mais tímidos e inseguros.

Materiais para estudo autônomo são uma possibilidade de compensar, pelo menos até certo ponto, estas divergências dentro do grupo. O professor dispõe de um acervo de material diversificado, para indicar a cada tipo de aluno o que mais lhe falta - seja treinamento sintático, ampliação de vocabulário, estratégias de leitura ou expressão escrita. O resultado do emprego consciente de elementos de estudo autônomo fora de aula não se limita à individualização e intensificação do ensino de idiomas. Ele cobre uma parte das atividades rotineiras do ensino e deixa mais tempo para atividades que só são possíveis em grupo e com a orientação e participação direta do professor, desde fases cognitivas de aquisição de conhecimentos sistêmicos, trabalho em grupos, jogos e simulações situacionais até à interação comunicativa em tempo real na língua alvo.

As novas tecnologias e o estudo autônomo

As novas tecnologias são bastante diversificadas, mas convergem em um ponto: o veículo e a interface de manipulação, em geral, é um computador. Para os fins do ensino de línguas, as várias facetas das novas tecnologias, desde o mais arcáico programa de CBT (computer based training) que roda num XT doado até à comunicação global através das páginas gráficas da Internet, têm algumas características em comum:
Todos os sistemas baseados nas novas tecnologias servem para aumentar e intensificar o contato do aluno com a cultura e língua alvo.
A interatividade; o computador reage a comandos e escolhas do usuário com estimulos que levam ao próximo passo que evoca uma reação da máquina e assim por diante. O usuário é sempre incentivado a continuar com a atividade.
A autonomia; o usuário domina a interação, na livre escolha seletiva entre as ofertas, guiada pelos seus interesses e suas necessidades.
Feed-back instantâneo; garantido im- ou explicitamente pela interatividade. Quando o computador não comenta diretamente as entradas feitas pelo aluno, sua reação vai confirmar ou não as interpretações feitas da informação anteriormente apresentada, levando à verificação ou falsificação das hipóteses e expectativas do aluno.
A interação acontece na língua alvo, porém não em tempo real, e em etapas controladas pelo aluno, o que permite uma experiência estimulante de sucesso, em vez da sensação frustrante do fracasso, comum nos métodos "comunicativos" tradicionais.
A máquina sempre incentiva os próximos passos do aluno, mas nunca exerce pressão, nunca perde a paciência.

Alguns exemplos do possível uso de novas tecnologias devem ilustrar as possibilidades e incentivar a criatividade na invenção de outras formas de utilização:

Jogos didáticos

Praticamente todos os jogos de computador na língua alvo que desenvolvem uma certa trama ou simulação de ação servem muito bem para o uso no seu ensino. Na perseguição dos objetivos do jogo, os alunos "esquecem" que estão no processo de aprendizagem lingüística. Todavia, o tempo inteiro é necessário praticar, utilizar e expandir conhecimentos e habilidades da língua alvo.

Softwares de ensino de línguas estrangeiras

Aqui encontram-se programas bastante variados: gerenciadores de vocabulário com possibilidades mais ou menos criativas de repetição e auto-controle, formas de exercícios mais tradicionais (lacunas, perguntas objetivas, combinatórias, reconstrução de textos etc.) ou aplicativos multimídia, sempre com o objetivo de melhorar a competência do aluno nas áreas de leitura, sintaxe, léxico e ortografia, pronúncia e expressão escrita. Muitos destes programas mostram traços nitidamente "behaviouristas". Nem por isso devem ser descartados incondicionalmente. No estudo autônomo, também este tipo de software tem as vantagens acima mencionadas. Sua utilização justifica-se ainda mais quando está integrada com outros materiais (exercícios de compreensão geral e detalhada, baseados em textos impressos ou gravados em fita, ou em uma seqüência de vídeo) ou quando faz parte de um trabalho de grupo.

Com quase todas a atividades dentro das novas tecnologias é aconselhável formar grupos de dois ou três alunos trabalhando com um computador, para estimular a troca e discussão de hipóteses - de preferência já na língua alvo. Os bons softwares didáticos já prevêem a interação dos alunos entre si, para acrescentar o aspecto social do uso da língua alvo. Mas mesmo com os outros, o professor pode estabelecer situações onde a colaboração dos alunos é necessária para completar o exercício.

Editores de texto

O mais arcáico editor de texto é uma ferramenta maravilhosa para incentivar a produção escrita de um grupo de alunos. Como o texto na tela tem um caráter muito mais provisório que palavras escritas em papel (por causa da facilidade de manipulação), a barreira dos estudantes é muito menor do que em frente um papel branco. O texto na tela é igualmente acessível a todos os integrantes do grupo. Cada contribuição de um aluno evoca comentários e adendos dos outros, fazendo com que as fases de produção escrita se tornem muito mais produtivas. Outro fator, já comentado, é a dinâmica de que a máquina estimula entradas de dados. Finalmente, é possível contar com todas as facilidades do processamento de texto: correção ortográfica, facilidade de corrigir e manipular o texto (eventualmente com a ajuda do professor), copiar ou imprimí-lo para trocá-lo com outros grupos. O resultado (texto correto, relativamente grande e impresso "limpinho") impressiona os alunos e estimula a autoconfiança. A produção escrita deixa de ser um teste dolorido e se torna, finalmente, uma experiência construtiva.

Fonte de informação

As novas tecnologias oferecem muitos recursos informativos, úteis para o ensino de língua estrangeiras, desde dicionários e enciclopédias da língua alvo (em disquete ou CD-ROM) até o uso da Internet como fonte de dados sobre virtualmente todos os assuntos possíveis. A grande vantagem do uso destes meios, por exemplo para projetos escritos sobre determinados aspectos da cultura alvo, é que, normalmente, toda a informação encontrada pode ser copiada diretamente para o texto dos alunos. Sua tarefa maior é encontrar a informação procedente, organizá-la e editar o resultado final, que será muito além das limitações de expressão escrita de um aluno na língua alvo, contribuindo assim, mais uma vez, para a motivação do aluno.

Meio de comunicação

Através da Internet, ou o correio eletrônico num sistema de BBS (bulletin board system = sistema de painel de mensagens), alunos de língua estrangeira podem manter contato com outros alunos em quase qualquer lugar do planeta para a troca de ideias e experiências, para correspondência de turma, para elaborar projetos, preparar intercâmbios etc., com as vantagens da editoração computadorizada na confecção dos textos e da rapidez da comunicação que não causa defasamentos desestimulantes, ainda por cima a baixo custo.

Os recursos das novas tecnologias podem ser utilizadas de várias formas para os fins do estudo autônomo, num contínuo que vai desde a sala de aula, onde o aluno aprende a lidar com a tecnologia e recebe apoio dos colegas e do professor, através da sala de computadores ou medioteca com acesso mais aberto, porém ainda com uma certa monitoria, até o uso totalmente independente, fora da instituição de ensino:

Na sala de aula aproveita-se mais o fator de dispor de novos tipos de exercícios, não realizáveis em papel, no quadro negro ou no retroprojetor. Também para fases de trabalho em grupos há várias possibilidades de utilizar um só computador, com todos os tipos de software.
A sala de computadores / mediateca pode ser utilizada durante a aula, principalmente quando se trata do único ambiente equipado com a tecnologia necessária dentro da instituição. Maior ainda é a sua utilidade para o estudo autônomo complementar, em horários mais flexíveis e com uma orientação técnica e na escolha do material adequado, através de um sistema de monitoria. Para alunos sem computador em casa, ou para materiais mais sofisticados como aplicações multimídia, é a única forma de realizar este tipo de atividades.
Hoje em dia, muitos alunos têm um computador em casa ou acesso a um no seu trabalho. Neste caso, o uso de exercícios em disquete é uma maneira fácil de dar ao estudante de língua estrangeira a oportunidade de se aperfeiçoar e garantir que ele realmente chegue a dominar o conteúdo dado na aula. Comparando com a lição de casa tradicional, o exercício em disquete tem várias vantagens: não há necessidade de corrigir cada frase dentro do precioso tempo de aula. Só em casos de dúvida será necessário discutir em aula. O aluno é corrigido pelo computador na hora, o que representa um reforço e fator motivacional muito maior. A "evasão" é menor. A cada dado do aluno o computador reage e exige outras entradas de dados, levando a uma "engrenagem" contínua até o fim do exercício.

Finalmente, algumas palavras só sobre a implementação dos recursos acima descritos. O primeiro passo sempre deve ser o treinamento de professores, para formar a "massa crítica" de multiplicadores e para dispor de um grupo de trabalho competente para executar os passos seguintes que seriam:

aquisição de hard e soft, segundo as necessidades e possibilidades estabelecidas pelo grupo de professores engajados, formados no passo anterior
compra / elaboração de material, considerando uma mistura construtiva entre "enlatados" adequados e sistemas abertos que permitem a elaboração de exercícios próprios ("sistemas de autoria")
organização do acesso, a conquista de um espaço físico, formação de monitores, definição de horários etc.
organizar a manutenção e atualização dos materiais

Como foi mencionado no início, o domínio de línguas estrangeiras é uma necessidade da sociedade de informação globalizada. Espero ter indicado, apesar de todas as limitações deste trabalho, algumas pistas de como a própria sociedade de informação oferece recursos para promover e facilitar a aprendizagem das línguas estrangeiras.