O trabalho abaixo foi apresentado no dia 19 de abril 1996, em Florianópolis, SC, na sede do
"Traço Freudiano" (um grupo de psicólogos, terapeutas e
psicanalistas), e será publicado na próxima edição da revista anual do grupo.
Die folgende Arbeit wurde am Sitz des "Traço Freudiano" (einer Gruppe von
Psychologen, Psychoanalytikern und Therapeuten) am 19. April in Florianópolis, SC als Vortrag gehalten und wird im
jährlich erscheinenden Sammelband der Organisation veröffentlicht.
Der zweite Teil geht auf Umberto Ecos Diskussion des Sprachzeichens unter dem Aspekt der von ihm aufgestellten Dichotomie "Enzyklopädie" vs "Wörterbuch" näher ein, um festzustellen, daß auch Eco, trotz aller Polemik gegen die auf Äquivalenzrelationen abhebenden Definitionsversuche des Wörterbuchs, letztlich eine Symbiose beider Elemente anstrebt.
Der letzte Teil zeigt schließlich verschiedene Möglichkeiten der Anwendung dieser linguistischen Erkenntnisse im modernen Fremdsprachenunterricht.

Introdução
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Este trabalho discute uma tese básica,
formulada por Umberto Eco na sua Semiótica e Filosofia
da Linguagem. Eco, em continuidade de sua obra semiótica,
quer descobrir se o valor do signo lingüístico, o
seu significado ou conteúdo, é constituído
no campo lexical do dicionário, através de equivalências
e definições, ou no campo textual de uma grande
enciclopédia de todos os textos jamais formulados, através
de instruções para a interpretação,
tiradas da comparação com todas as ocorrências
do signo nessa enciclopédia. A questão é,
portanto, se o significado nasce da langue
ou da parole,
do sistema lingüístico ideal ou do seu uso prático
na linguagem concreta. Eco procura, assim, a resposta à
pergunta de Nietzsche: Quem fala?", se são as
próprias palavras que falam, ou quem faz uso delas.
A resposta de Eco é bem clara
em favor da enciclopédia. Em alguns trechos a análise
dele parece mais uma cruzada, um verdadeiro exorcismo contra o
dicionário". A postura deste trabalho é um
pouco mais diferenciada: Por assim dizer, concorda com Eco em
gênero e número, mas não no grau de suas afirmações.
A análise mais detalhada de suas exposições
mostra que o maniqueísmo entre os dois pólos elaborados
por Eco serve-lhe mais com fins ilustrativos, e que, também
no modelo de Eco, dicionário e enciclopédia são
solidários.
Para seguir os caminhos do signo entre
dicionário e enciclopédia, é preciso rever
primeiro algumas teorias fundamentais sobre o próprio signo.
Porque, necessariamente, a fundamentação do significado
já está - in nucleo
- na concepção teórica do signo.
Por último, segue uma breve análise
das conseqüências dos resultados deste trabalho para
o ensino de idiomas, ilustrada com alguns exemplos da experiência
prática do ensino de alemão como língua estrangeira.
O baseamento teórico da semântica,
a teoria dos signos, a semiótica, de uma forma ou outra,
recorrem tradicionalmente a um modelo conhecido como o triângulo
semiótico(1) para explicar os processos perceptivos, cognitivos
e pragmáticos ligados ao uso de signos (lingüísticos
ou não). Os três pólos do triângulo
semiótico são o signo, o significado e o objeto
real ao qual ambos se referem. Existem muitas variações
de terminologia que diversificam mais um ou outro aspecto do processo.

Isidoro Blikstein mostra que a relação
triádica domina a discussão do tema desde a antigüidade
grega: (2)
| estóicos | semainon (significante) | semaimenon (significado) | pragma (objetos) |
| Santo Agostinho | verbum | dicibile | res |
| escolásticos | vox | conceptus | res |
| lógicos de Port Royal | nom | idée | chose |
| G. Frege | Zeichen | Sinn | Bedeutung |
| F. de Saussure(3) | signifiant | signifié | objet |
| K. Heger(4) | monema | semema | coisa |
| Ch. Morris(5) | veículo do signo | interpretante | designatum |
| R. Jakobson(6) | signo | Remetido | coisa |
| L. Hjelmslev(7) | expressão | conteúdo | continuum do mundo |
| C. Ogden/I. Richards | signo/símbolo | referência/pensamento | referente/coisa |
| Ch. Peirce | signo/representâmen | interpretante | objeto dinâmico/imediato |
| S. Ullmann(8) | nome | sentido | coisa |
| U. Eco | experiência verbal | unidade cultural/interpretante | objeto real |
| I. Blikstein(9) | símbolo/significante | referência/significado | referente/coisa |
Em termos gerais, há uma congruência
dos conceitos dentro de cada coluna. A primeira coluna representa
o lado social, a segunda o lado individual do processo semiótico
e a terceira o mundo dos objetos não-lingüísticos.
Apesar disso, encontram-se certas diferenças e paralelismos
interessantes. Por exemplo, a mudança que ocorreu entre
o modelo da antigüidade grega (incluindo os aqui não
citados Platão e Aristóteles) e a sua adaptação
na idade média pelos escolásticos: enquanto em Platão
a idéia ficaria na terceira coluna, sendo que os objetos
reais só representam ou manifestam a idéia, no começo
da idade moderna a idéia se encontra na segunda coluna,
como pensamento etc. Em outra palavras, o sujeito que era submisso
ao mundo exterior das idéias universais, passa a dominá-lo
através da usurpação do ideário, antes
disso reservado a entidades transcendentais. (10)
Uma outra observação é
que Frege coloca Bedeutung" ( = significação/referência)
na terceira coluna, no mundo não-lingüístico,
assim reaproximando-se de Platão, só que do extremo
oposto: o mundo externo é repleto de sentido porque ele
é criação do sujeito autônomo. Um autor
que foge um pouco da linha geral é Hjelmslev, com seu continuum
do mundo que inclui não somente os objetos, mas também
signos e referências no mesmo nível.

A forma (sonora etc.) da expressão cria um sistema de tipos. Sua substância são as ocorrências. A forma do conteúdo (expressões) estrutura sua substância (o continuum). Ambos, expressões e conteúdo, fazem parte do grande continuum do qual eles tratam. O gráfico, de Eco(11), ilustra como os problemas do significado perceptivo e fenomenológico, do conteúdo semântico e cognoscitivo (Husserl), do objeto imediato e do objeto dinâmico (Peirce), estão estreitamente ligados, embora não deixe bem claro o que Eco pretende explicar com sua ajuda.(12)
Roman Jakobson renomea a referência
para Remetido já que, para ele, o signo representa une
relation de renvoi", aliás, apenas uma sutil variação
de Sto. Agostinho: aliquid stat pro aliquo,
com ênfase para a visão teleológica do mundo,
partindo do sujeito como ponto de partida e tomando o mundo real
como alvo. No caso de Umberto Eco, vale salientar que ele, apesar
de sua abordagem enciclopédica, não faz menção
de Morris que emprega o mesmo termo interpretante"
para significado" 50 anos antes do italiano.(13) Blikstein
constata que o modelo em forma de trapézio de Heger consegue
elaborar melhor e com mais detalhes o lado esquerdo do triângulo
semiótico - a ligação entre signo e significado,
mas ainda deixa de explicar a relação entre conceito"
e coisa" como entre coisa" e substância
fônica/signo".

Blikstein visa compensar essa deficiência
do triângulo com o seu modelo, que inclui, na verdade, uma
verdadeira teoria da percepção e cognição.
O gráfico do modelo de Blikstein
prova a sua preocupação com o lado direito, perceptivo-cognitivo,
do triângulo semiótico. Como ele não se interessa
mais pelo lado esquerdo - já diferenciado por Heger, Blikstein
simplesmente junta a primeira vista signo" e significado"
num bloco maior língua". A língua influencia
a práxis social que, por sua vez, determina o aparelho
de percepção e cognição, que estrutura
a realidade amorfa e é alimentado e alterado por ela ao
mesmo tempo. Por último, o aparelho cognitivo reformula,
através do referente, o sistema lingüístico.(18)
Esta
abordagem traz várias vantagens:
1º) supera o impasse do triângulo semiótico
fechado(19), que não consegue definir signo", (20) ou
não explica seu acesso ao mundo real; 2º) resolve
o problema do significado, transferindo-o do triângulo e
do sistema lingüístico para o aparelho pré-cognitivo,
formado por traços(14) , traços ideológicos(15) ,
corredores isotópicos(16) e estereótipos,
erguidos pela práxis e baseados na experiência existencial
da condição humana. Interessante é que, destarte
os estereótipos, ao invés de serem considerados
distorções abomináveis, ganham um valor básico
para a percepção humana. Blikstein(17) não o
diz explicitamente mas, necessariamente, os estereótipos
não servem apenas de óculos" socialmente
adquiridos para ver o mundo mais nitidamente, mas também
são como viseiras que dificultam que se enxergue algo fora
da percepção convencionalizada.
Coerente com sua abordagem de transpor
parte central do processo semiótico para fora do triângulo,
Blikstein assume a existência de cognições
e significados pré- ou não-lingüísticos,
ainda sem ligação com um conceito verbal. Evidentemente
existem impressões cognitivas (ainda) não codificadas,
como por exemplo um cheiro ou som, um trecho de música,
podem evocar espontaneamente lembranças e emoções
vivas e manifestas e que custam a serem verbalizados. Outro exemplo
são casos quando se tem uma nítida idéia
de algo, mas a palavra não vem, está na ponta
da língua". Este tipo de significado" não-verbal
seria parecido com a cognição animal, ou com o olhar
puro", ainda não convencionalizado pela práxis,
no exemplo de Blikstein representado por Kaspar Hauser.
Na tradição de Wilhelm
v. Humboldt, Sapir/Whorf, A.. Martinet, Roland Barthes e muitos
outros, Blikstein acredita que o homem e a língua se modelam
mutuamente, num processo interdependente, dentro de um sistema
cibernético, onde não existem explicações
monocausais ou rígidas, e sim uma rede de influências
múltiplas que só em conjunto formam uma plataforma
mais ou menos estável, porém na base de elementos
flutuantes. Mas só esta flexibilidade e capacidade de adaptação
contínua garantem a possibilidade e funcionalidade do processo
(21)semiótico. Em Bliksteins concepção só
falta um ponto de vista: a possibilidade do homem transformar
a realidade - por ele concebida como dada e invariável
(apesar de amorfa) - através do uso da língua.(22)
Apesar da diferença enorme entre
os dois modelos na disposição gráfica, Hjelmslev
expõe basicamente a mesma idéia de Blikstein. Este
último enfoca mais a função da práxis
no aparelho perceptivo-cognitivo. O continuum global hjelmsleviano
exprime melhor os aspectos da reciprocidade e abrangência
das várias relações entre o mundo real, o
homem e a língua. Incompreensivelmente, nem Eco, o enciclopedista,
nem Blikstein, o ecleticista, se referem a um último modelo
semiótico que abrange com facilidade e simplicidade estes
três pólos: o triângulo invertido de Karl Bühler.(23)
O triângulo é invertido
na maneira que ele põe a peça chave do processo
semiótico, o signo, literalmente de fora para dentro, para
o seu lugar adequado, no centro da análise semiótica.
Esta forma abrange todas as relações imagináveis
no processo comunicativo: entre o signo e os três pólos
em volta, como também entre emissor, destinatário
e mundo real - sempre através de signos. Claro que o esquema
de Bühler ainda não diz tudo sobre a natureza das
relações entre os vários elementos do seu
modelo, pois seu ponto de partida não é só
a análise lingüística, mas também o
enfoque sociológico da comunicação humana.
Assim completam- se os aspectos até agora expostos pela
posição funcional do signo no processo semiótico.
Outro elo em comum entre os modelos
de Hjelmslev, Blikstein e Bühler é que eles acabam
decididamente com a discussão infrutífera sobre
a questão se há, e qual seria a influência
do contexto sobre o significado.(24) Hjelmslev, pela construção
recíproca de signo (expressão), significado (conteúdo)
e continuum do mundo, Blikstein pela ênfase à práxis
na criação não somente do signo, mas sim
de toda a realidade perceptiva, e Bühler porque o signo não
acontece sem uma das partes constitutivas em volta dele.
Enquanto a primeira parte deste trabalho
focaliza a questão da relação entre significado
e o mundo real, o lado direito do triângulo semiótico,
agora trata-se dos vínculos entre o significado e o signo,
o lado esquerdo do triângulo. O lado inferior (sic!)
do triângulo, ou seja, a relação entre signo
e mundo real não tem despertado muito interesse entre teóricos
da semiótica e filósofos. Há um consenso
que o signo é arbitrário",(25) com poucas
exceções como signos onomatopéicos e icônicos,
signos semi-motivados, por exemplo, derivações e
composições. (26)Não por acaso, o vértice
do triângulo é formado pelo significado, que hoje
em dia é situado no domínio do sujeito do processo
lingüístico.(27)
Já no primeiro capítulo
de seu livro, Eco afirma que o signo não é semelhança/identidade
mas sim instrução para a interpretação".(28)
Ele define como interpretância": (29)
Condição de um signo
não é portanto só a da substituição
(aliquid stat pro aliquo), mas a de que haja uma possível
interpretação. (...) O conteúdo interpretado
permite-me ir além do signo originário, permite-me
entrever a necessidade da futura ocorrência contextual de
um outro signo. (...) O signo (...) é sempre o que me abre
para algo mais. Não há interpretante que, ao conformar
o signo que interpreta, não modifique, mesmo que só
um pouco, seus limites. Interpretar um signo significa definir
a porção de conteúdo veiculada em suas relações
com as outras porções derivadas da segmentação
global do conteúdo; e definir uma porção
através do emprego de outras porções, veiculadas
por outras expressões." (grifos do autor)
A partir deste ponto fica claro que
Eco descarta o dicionário, ou seja, a definição
intralingüística do significado, como base única
da semântica. A interpretância significa o recurso
enciclopédico de atribuir significado ao signo através
da comparação com todos os contextos possíveis
ou disponíveis, em outras palavras: com os registros da
enciclopédia. Porém, antes disso ele prefere dar
toda a volta pelo reino do abominável, ele quer vencer
a batalha no terreno e com as armas do inimigo. A primeira intenção
dele é rebater a idéia do signo lingüístico
como equivalência bicondicional - fundo do pensamento de
dicionário - que, para ele, é coerente com uma noção
esclerosada e ideológica de sujeito".
... o signo, como momento (sempre
em crise) do processo de semiose, é o instrumento através
do qual o próprio sujeito se constrói e se desconstrói
constantemente. O sujeito entra numa crise benéfica porque
participa da crise histórica (e constitutiva) do signo.
O sujeito é aquilo que os constantes processos de resegmentação
do conteúdo permitem que ele seja. Neste sentido (embora
o processo de resegmentação tenha de ser realizado
por alguém, e surja a suspeita de que seja uma coletividade
de sujeitos), o sujeito é falado pelas linguagens (verbais
ou não), não pela cadeia significante, mas pela
dinâmica das funções sígnicas. Somos,
como sujeitos, o que a forma do mundo pelos signos nos permite
ser. Somos, talvez, em alguma parte, a pulsão profunda
que produz a semiose. No entanto, reconhecemo-nos apenas como
semiose em ato, sistemas de significação e processos
de comunicação. Somente o mapa da semiose, como
se define num determinado estágio do percurso histórico
(com as rebarbas e os detritos da semiose anterior que arrasta
consigo), nos diz quem somos e o que (ou como) pensamos. A ciência
dos signos é a ciência de como se constitui historicamente
o sujeito."(30)
Na mesma página ele cita Peirce
com um trecho que realça mais ainda essa relação
entre o homem e os signos. Aliás, o mesmo citado poderia
muito bem estar na conclusão de Blikstein.
Então, de fato, os homens
e as palavras educam-se reciprocamente: cada acréscimo
de informação num homem comporta - e é comportado
por - um correspondente acréscimo de informação
de uma palavra... A palavra ou signo que o homem usa é
o próprio homem, pois, como o fato de que cada pensamento
é um signo - considerado junto com o fato de que a vida
é um fluxo de pensamentos - prova que o homem é
um signo."
O que falta em relação
a Blikstein, é indicar por meio de que instrumentos a educação
mútua" entre homens e signos ocorre. Por isso, este
último põe a práxis em posição
chave no seu modelo. Ela é o veículo para implementar
qualquer modificação duradoura de signos e ao mesmo
tempo ela impõe ao homem o conteúdo e os caminhos
que os signos oferecem.
Na teoria tradicional, a maneira como
o homem forma e altera signos é a instituição
e modificação por uma definição: tal
signo significa tal coisa, em outras palavras: via um tipo de
dicionário. Este dicionário pode ser tanto descritivo
quanto prescritivo(31), ele vai sempre trazer relações
entre signos para definir, descrever ou estabelecer o valor de
outros. Porém, nessa obviedade começam os problemas
sérios para a teoria semântica: Definir o significado
por sinonímia é circular, porque deveria definir
primeiro o significado do sinônimo e assim por diante. Outra
deficiência de uma semântica na base de sinonímia
fica clara na tradução para outros idiomas, importante
ainda para a terceira parte deste trabalho. Mesmo coisas universais
como /sol/, facilmente traduzido para /Sonne/ em alemão,
em princípio numa sinonímia" perfeita
bicondicional: se é /sol/ em português, então
/Sonne/ em alemão e vice versa, sem a mínima margem
de erro. Acontece que a equivalência nesse caso se limita
ao referente idêntico. O significado é longe de ser
equivalente. /Sonne/ significa «calorosa fonte de vida que
abriga e fortalece os seres vivos» enquanto em português(32)
/sol/ significa «ameaça mortal e constante a fauna
e flora». Parte dessa diferença ainda poderia ser
atribuída à conotação, tomando como
denotação apenas «corpo celeste que providencia
luz na Terra». O fato de /sol/ ser masculino e /Sonne/ feminino
depõe nitidamente contra esta hipótese.
Caso mais claro ainda é o de
/casa/ e /Haus/. Apesar de ser, novamente, uma sinonímia"
perfeita à primeira vista, em português significa
outra coisa que em alemão, onde se restringe a «edificação
independente designada à moradia». Em português
abrange além disso também «foco de moradia
familiar = lar». Assim diz-se Passa lá na minha
casa!" para fazer um convite indefinido, mesmo quando se
mora num apartamento, ou até num quarto apertado de estudante,
dividido com outras pessoas. Traduzir com /Haus/ nesse caso é
absolutamente impossível. Eco suspeita, nesse ponto, de
que processos semióticos e processos de categorização
e portanto processos perceptivos sejam solidários ou paralelos(33).
As definições do dicionário seriam então
o resultado de uma organização categorial
do mundo"(34). Evidente no caso de /sol/ - /Sonne/, onde se vê
claramente a influência da experiência existencial
diferente. /Casa/ em português parece mais um caso de polisemia.
Para resolver o problema de estabelecer
o valor de cada signo o mais inequívoco possível,
o dicionário deve fornecer explicações duras"
e estáveis. Para reduzir o problema da circularidade sem
fim, ele deve limitar os elementos através dos quais ele
semantisa os demais signos. A solução milenar para
estas exigências é o sistema de árvores lógicas
constituídas de hiperônimos e hipônimos, ordenando
e categorizando não só os signos como também
o mundo real perceptível(35). A árvore forma um conjunto
de postulados de significado, estruturado hierarquicamente, portanto
limitado.(36)
Uma outra tentativa de melhorar a árvore
semântica é a de Hjelmslev, que tentou, segundo o
seu modelo acima presentado, formar grupos limitados de elementos
formais de conteúdo.(37)
| Ovino | Suíno | Bovino | Eqüino | Abelha | Humano | |
| Macho | Carneiro | Porco | Touro | Garanhão | Zangão | Homem |
| Fêmea | Ovelha | Porca | Vaca | Égua | Abelha | Mulher |
Essa grade explica os fenômenos
de hiperonímia e sinonímia, redundância, verdade
analítica, consistência e implicitação
pela simples posição dos elementos nas linhas e
colunas, mas ela não explica o valor semântico dos
elementos por si. Pior, ao contrário dos elementos, que
podem ser considerado primitivos", as classes semânticas
não têm o mesmo valor e são, sim, simples
abstrações ou derivações dos primitivos,
enquanto deveriam ser o contrário, para fundamentar um
sistema semântico rígido. Além disso parece
difícil encontrar outros grupos parecidos e de maior abrangência.
Mais diversificados, e consistentes por serem fechados, são
dicionários parciais como, por exemplo, o sistema de classificação
zoológica, que, como sistema taxonômico, elimina
ambigüidade. Eco diz que,
... para delinear um dicionário forte
devemos sempre conceber um universo bastante pobre e reduzido,
digamos um universo de câmara. O inconveniente é
que geralmente os construtores de dicionários ideais não
conseguem mais sair de seu universo de câmara...".(38)
Primitivos são palavras-objeto,
de ostensão imediata, seria um sistema semântico
inato, um conjunto de átomos lógicos".
Porém, a idéia de uma lista de primitivos
nasce para explicar uma competência lingüística
independente do conhecimento do mundo, mas nesse segundo modo,
a competência lingüística está radicalmente
fundada num precedente conhecimento do mundo."(39) Primitivos
seriam idéias inatas universais de caráter platônico.
Problemático fica o seguinte fato: ou há muito poucas
idéias universais (como o uno e o múltiplo, o bem
e o mal etc.) ou muitas e, neste caso, o grupo não é
mais fechado e assim não serve mais para fundamentar a
semântica. Uma dificuldade a mais da árvore na base
de primitivos é que o falante de uma língua natural
não consegue distinguir primitivos de construtos teóricos,
usa, segundo Eco(40), /carne/ no mesmo nível semântico
que /laranja/, e, ... os únicos seres anormais, em
toda essa questão, são os defensores de uma semântica
à maneira de dicionário."(41)
O dicionário não só
é problemático pela inconsistência lógica
de ser circular. Lyons e Leech estudaram a lógica opositiva
e explicam outro motivo do fracasso das árvores: A estrutura
lógica de oposições é bem mais diversificada
do que se supõe na definição de uma hierarquia
lógica, baseada em oposições binárias.
Eco cita vários exemplos:(42)
Só o contexto determina em muitos
casos o valor dos elementos opostos. /Homem/ é mais oposto
a /mulher/ ou a /menino/? Aqui entra o fuzzy-concept"
(conceito vago): a águia é mais ave que a galinha,
a cobra mais reptil que a lagartixa. É exatamente
a capacidade que temos de reorganizar contínua e contextualmente
as unidades de conteúdo, que fundamenta a possibilidade
do retículo enciclopédico."(43) Eco quer tirar
as conseqüências destas observações e
erguer como alternativa um sistema de classificação
cruzada, abandonando a hierarquia das árvores. Por
isso, ou as marcas não devem ser interpretadas e, assim
não se define o significado; ou devem ser interpretadas
e perde-se a maneira mais segura de limitar o seu número."(44)
O resultado disso é anunciado drasticamente por Eco:
Mas podemos dizer sem simulação
que a árvore dos gêneros e das espécies, de
qualquer modo que seja construída, explode numa poeira
de diferenças, num turbilhão infinito de acidentes,
numa rede não-hierarquizável de qualia. O dicionário
(...) dissolve-se necessariamente, por força interna, numa
galáxia potencialmente desordenada e ilimitada de elementos
de conhecimento do mundo. Em conseqüência torna-se
uma enciclopédia e o faz porque de fato era uma enciclopédia
que se ignorava ou um artifício idealizado para mascarar
a inevitabilidade da enciclopédia."(45)
Conclusão de Eco, novamente:
Se as semânticas como dicionário são
inconsistentes, resta apenas tentar as semânticas como enciclopédia."(46)
Eco também critica o dicionário
pela sua perfeita inutilidade do ponto de vista explicativo
dos processos comunicativos."(47)
Comunica-se por enunciados e,
geralmente, por textos. Entende se por 'texto' seja uma cadeia
de enunciados ligados por vínculos de coerência,
seja grupos de enunciados emitidos ao mesmo tempo com base em
mais de um sistema semiótico. (...) Característica
dos textos é o exprimir não só significados
diretos (função do significado das expressões
simples) mas também significados indiretos."(48)
Para resolver o problema, Eco recorre
a Grice que constata que já o significado lexical não
é equivalência, mas sim a associação
de uma expressão com uma série de instruções
para o uso em contextos diferentes."(49) Desta forma até
o significado normal", sem ser significado indireto",
sempre depende de contextos e de assunções fundamentais
que não são nem codificáveis nem semanticamente
representáveis, mas sim instruções
pragmaticamente orientadas."(50) Nesta altura já aconteceu
a integração de semântica e da pragmática,
pois ... isso pressupõe que se entenda L não
como um sucinto dicionário, mas como um complexo
sistema de competências enciclopédicas."(51),
porque a língua L, como enciclopédia, providencia
um dicionário paralingüístico, incluindo frames"
e scripts"(52) convencionalizados. Contudo o significado
contextual vai muito além dos significados lexicais, mas
isso só é possível se a enciclopédia
fornece a) significados lexicais em forma de instrução
para a inserção contextual e b) roteiros."(53)
Além dessas condições pragmáticas
convencionalizadas(54) existem pressuposições pragma-semânticas
como no caso de /conseguir/, que implica que haja intenção
consciente e algo difícil de adquirir.(55)
A enciclopédia se impõe
de todos os lados como a salvação da teoria e prática
da semiose. Já Peirce tinha imaginado o interpretante como
um tipo de co-signo", do lado do destinatário,
equivalente ao próprio signo, ou talvez mais desenvolvido"(56).
A conseqüência disso é uma semióse ilimitada,
porque a cadeia de interpretantes é ilimitada ou pelo menos
indefinida. Eu não posso saber o que o destinatário
associa/evoca ou infere na hora de ouvir o signo. Signo e interpretante
circunscrevem os significados/conteúdos de maneira
assintótica, sem nunca chegar a tocá-los diretamente,
mas tornando-os de fato acessíveis mediante outras unidades
culturais. Essa contínua circularidade é a condição
normal dos sistemas de significação e é realizada
nos processos de comunicação."(57)
O interpretante nesse caso é
dado objetivo: ele não depende de representação
mental do sujeito (inatingível) e é coletivamente
verificável, sua interpretação é registrada
intertextualmente (enciclopédia!). Todas as associações,
evocações já ocorridas de /casa/ estão
registradas intertextualmente na imensa biblioteca ideal, cujo
modelo teórico é a enciclopédia que deve
fornecer instruções para essas interpretações.
Naturalmente, numa semântica
de interpretantes, toda interpretação é por
sua vez sujeita a interpretação. (...) Numa semântica
de interpretantes não há entidades metalingüísticas
e universais semânticas. Cada expressão pode ser
sujeito de uma interpretação e instrumento para
interpretar uma outra expressão. (...) A enciclopédia
é um postulado semiótico. (...) ela é o conjunto
registrado de todas as interpretações, concebíveis
objetivamente como a biblioteca das bibliotecas ..."(58)
... incluindo informações
não-verbais, quadros, sons etc. Assim sendo, ela deve ficar
um postulado, porque de fato não é descritível
na sua totalidade. Ela não pode ter fim, está em
eterna renovação, globalmente.
Com essa abrangência universal,
o tamanho tende ao infinito, com a conseqüência necessária
de que a enciclopédia como sistema objetivo das suas
interpretações é 'possuída' de maneira
diferente por seus diferentes usuários."(59) O intérprete
não é obrigado a conhecer toda a enciclopédia,
mas apenas a porção da enciclopédia
necessária para a compreensão desse texto."(60)
Segundo Eco, o conceito de código restrito e elaborado
do livro famoso de Basil Bernstein(61) refere-se às modalidades
de posse cultural dos dados enciclopédicos. (...) enquanto,
do ponto de vista de uma semiótica geral, se pode postular
a enciclopédia como competência global, do ponto
de vista sociosemiótico é interessante reconhecer
os diversos níveis de posse da enciclopédia, ou
as enciclopédias parciais (de grupo, de seita, de classe,
étnicas e assim por diante)." Este passo é
inevitável. Se a enciclopédia é a base da
língua e se existem várias sub-línguas dentro
de um idioma(62), então devem existir várias enciclopédias,
como já registramos antes vários dicionários.
Por conseqüência, a enciclopédia
é uma hipótese reguladora com base na qual, na ocasião
das interpretações de um texto (seja ele uma conversa
na esquina ou a Bíblia), o destinatário decide construir
uma porção da enciclopédia concreta que lhe
permita reconhecer como característica do texto ou do emissor
uma série de competências semânticas."(63)
Peirce postula que o significado de
uma unidade semântica implica todos os enunciados em que
pode ser inserida, e estes, todas as inferências com base
nas regras registradas na enciclopédia. A semiótica
textual estuda na base de que sinais do texto (ou conhecimentos
anteriores) o intérprete decide que parte da enciclopédia
se aplica nele. Sem esses sinais ou conhecimentos anteriores,
a interpretação está mais para uso do texto
do que para interpretação.
A enciclopédia não é
em forma de árvore, embora para caracterizar porções
parciais dela se possa recorrer a estruturas arbóreas,
contanto que entendidas precisamente como modos de descrição
provisória" . O modelo mais adequado para a enciclopédia
é o rizoma, onde não há hierarquia, pontos
e posições, mas somente conexões. Pode ser
composto de várias árvores, porém não
estruturadas. A idéia de uma enciclopédia
como rizoma é conseqüência direta da inconsistência
de uma árvore de Porfírio."(64) Assim construímos
permanentemente diversas árvores seletivas de uma maneira
improvisada, ad-hoc modificando-as ao progredir do processo semiótico.
Certos aspectos são focalizados enquanto outros ficam,
temporariamente, desativados(65). No modelo da semântica como
enciclopédia, as propriedades semânticas não
são definidos por primitivos, mas sim por interpretantes,
ou seja outras expressões interpretáveis.
De novo, Eco apoia-se em Peirce e sua
lógica dos relativos, que postula que o significado
de um termo deveria ser representado mediante referências
a outros termos com que estará necessariamente contextualizado."
Assim o modelo leva em conta as diferenças entre denotação
e conotação. /Cão/ no contexto zoológico
é «animal, mamífero, carnívoro, etc.»,
em outro vira «bicho desprezível». Hjelmslev
acrescenta que uma semiótica conotativa tem como plano
de expressão uma semiótica denotativa, ou seja,
porções até então desconexas da enciclopédia
fornecem propriedades atribuíveis à expressão
em questão. Desta maneira, pode até haver conexões
contraditórias em determinados contextos, sem pôr
em questão o funcionamento do aparelho como todo, muito
pelo contrário. O exemplo de Eco é /átomo/,
que, dependendo do contexto, pode significar «partícula
não separável» ou justamente o oposto. Neste
sentido, portanto, organizamos um dicionário toda vez que
queremos circunscrever a área de consenso dentro do qual
um discurso se move."(66)
Na opinião de Eco, instruções
enciclopédicas podem levar um computador a traduzir, um
dicionário nunca(67). Também o problema da representação
dos termos sincategoremáticos (preposições,
conjunções, advérbios etc.) no dicionário
é resolvido pela enciclopédia.
Resta o problema de saber escolher da
enciclopédia global, ou da parte (ainda considerável)
à qual se tem acesso, a porção adequada para
interpretar um determinado texto.
Os contextos e as circunstâncias registrados,
não sejam infinitos mas sejam os que estatisticamente,
segundo uma hipótese de competência média
( ou em referência à competência requerida
por um certo co-texto), sejam considerados parte da competência
enciclopédica do emissor ou do destinatário."(68)
Além disso, Eco acredita que
a competência enciclopédica provê o destinatário
de elementos suficientes para atualizar o significado lexical
do termo com base em outras inferências co-textuais que
a teoria semântica prevê sem poder registrá-las
antecipadamente."(69) Assim, a enciclopédia passa a incluir
fenômenos até então atribuídos à
pragmática.
Como a enciclopédia ganha em
complexidade, nasce mais uma dificuldade: ela perde em maneabilidade
e representabilidade global. Por isso Eco reconsidera seu juízo
final sobre o dicionário e concede que a impossibilidade
de um dicionário finito não quer dizer que não
se possa ou deva incluir porções da enciclopédia
em forma de dicionário e que a enciclopédia não
possa servir de dicionário às vezes. Parece,
assim, que a organização à maneira de dicionário
é a maneira como podemos representar localmente a enciclopédia."(70)
Para ilustrar como na realidade os dois conceitos, por ele descritos
como antagônicos, se mesclam e apoiam, o autor cita um exemplo
prático que reflete o eixo que os separa e liga. São
as propriedades analíticas e sintéticas, conceptuais
() e factuais (), atributivas e descritivas, necessárias
e acidentais.

Subentende-se que o usuário do
dicionário saiba que líquidos tendem a evaporar,
têm que ser contidos, podem molhar outros objetos etc. Porém:
Cada uma dessas propriedades compreendidas
pelas marcas 'conceptuais' é de ponto de vista próprio
uma propriedade factual, porque os líquidos não
evaporam sempre do mesmo modo, molham de maneira diferente os
diversos corpos (...) e assim por diante."(71)
As marcas conceptuais são então
simples artifícios estenográficos para a economia
do dicionário.
Esta, e não outra, é a função
de um hiperônimo num sistema lexical. (...) as marcas conceptuais
são abreviaturas lexicais para conjuntos de propriedades
factuais que não se julga oportuno pôr em discussão."(72)
Apesar disso, Eco considera que a própria
distinção entre gêneros naturais e acidentes
possa ser radicada na própria estrutura das línguas
indo-européias (sujeitos e predicados, substantivos e verbos,
substantivos e adjetivos, etc.)(73). Também a relação
entre denotação e conotação reproduz
a diferença entre dicionário e enciclopédia.
A denotação de /cão/ como «animal, mamífero,
carnívoro, quadrúpede» etc. não se discute,
mas sim a conotação de ser «melhor amigo do
homem» ou «bicho desprezível» que é
culturalmente estabelecida e não tão duradoura.
A função da poesia neste contexto é pôr
em questão as marcas conceptuais e os 'gêneros naturais'(74).
Em conclusão, uma vez que se demostre que o dicionário
não é uma condição estável
dos universos semânticos, nada impede de (...) admiti-lo
como artifício útil ..."(75), dentro de uma enciclopédia,
bem entendido.
O contrário também faz
muito sentido, como prova a abordagem de Ernst Leisi(76), que analisa
a dificuldade encontrada na tradução de uma língua
para outra(77), onde se trata da árdua tarefa de encontrar
equivalências verdadeiras para os signos. Leisi estuda minuciosamente
as condições para o uso de signos nas duas línguas
em comparação. Um exemplo ilustrativo são
condições encontradas no sujeito e no objeto para
o uso de um determinado verbo. O alemão /schreiten/ (caminhar
majestosamente) implica um sujeito que imponha respeito, nunca
se usaria para um inseto(78). O inglês /put/ (pôr) tem
uma série de equivalências em alemão, porque,
ao contrário do alemão, em inglês não
há restrições para o objeto. Assim /put/
pode ser /stellen/ para objetos sólidos de extensão
predominantemente vertical, /legen/ para objetos sólidos
de extensão predominantemente horizontal, /setzen/ para
objetos sólidos compactos, estabelecendo um contato estável,
/gießen/ para líquidos, /geben/ para não-sólidos
(sal por exemplo), incluindo um componente direcional «para
dentro de alguma coisa»(79) etc. Apesar de Leisi elaborar um
aparelho impressionante de categorias para analisar de maneira
abstrata as condições de uso de substantivos, adjetivos
e verbos, esse exemplo já é o suficiente para entender
o seu método: Ele consulta a enciclopédia e abstrai
das ocorrências lá registradas condições
gerais para o uso de cada signo. De fato o falante nativo usa
o mesmo mecanismo para decidir se o signo se aplica ou não,
porém sem ter consciência nem conhecimento dessas
condições abstratas. O resultado do trabalho de
Leisi não é apenas um esboço para um dicionário
contrastivo melhorado das duas línguas por ele estudadas.
Ele mostra como a enciclopédia (parole) se transforma em
dicionário (langue), sem cair na armadilha das árvores
globais.
Resumindo as exposições
de Eco, verifica-se que o dicionário, de fato, é
mesmo uma enciclopédia estenográfica, na prática
muitas vezes mutilada e por isso insuficiente. Um dicionário
bom não passa de uma enciclopédia disfarçada,
na medida que traz os contextos, ou seja registros enciclopédicos,
para desambiguar os vários significados de cada signo.
Em contrapartida, a enciclopédia é composta por
várias árvores de dicionários parciais, flutuantemente
entreligadas num sistema mais parecido com rizoma que com árvore.
Ou seja, dicionário e enciclopédia são como
ovo e galinha, um depende do outro e ao mesmo tempo o determina.
No final, a dicotomia entre dicionário e enciclopédia
dissolve-se de uma maneira hegeliana: na síntese de ambos
para formar um modelo semiótico mais complexo.(80)
Porém, o maior valor do trabalho de Eco está onde mora sua verdadeira paixão: no pensamento enciclopédico, ou seja no instrutivo-didático nesse caso, que obriga seus leitores a acompanhá-lo na travessia de páginas tumultuadas da enciclopédia parcial da teoria semântica.(81)
O objetivo da didática do léxico
no ensino de uma língua estrangeira deve ser construir
o sistema interdependente de dicionário - enciclopédia
da língua alvo, como acima descrito, na mente do aluno.
Pode parecer ambicioso demais, um segundo processo de aquisição
e não apenas de ensino de língua. Mas toda aprendizagem
de línguas, seja qualitativa e quantitativamente limitada,
só consegue alcançar uma certa competência
comunicativa quando dá acesso a essas instruções
de uso", fornecidas por dicionário e enciclopédia
em conjunto. Blikstein cita E. Hall: "..pessoas de culturas
diferentes não apenas falam línguas diversas mas,
o que é talvez mais importante, habitam em diferentes mundos
sensoriais."(82)
Por causa da construção
mútua do sistema cognito-perceptivo e do aparelho lingüístico,
muito bem analisada por Blikstein, não é possível
adquirir apenas um dos dois elementos. Por isso, um aluno com
exímio domínio da língua alvo dominará
também a práxis social desta cultura alvo. Por outro
lado, o caminho mais seguro de apreender uma língua estrangeira
é a integração à práxis, porque
assim adquire-se desde o início, através dos óculos
sociais" da língua alvo, o sistema lingüístico
correspondente - neste caso o léxico, sem ficar preso no
problema da tradução.
Por isso, o caminho indicado para o
ensino é de dar ao aluno acesso à maneira como um
falante nativo usa a língua(83) - sem ter conhecimento consciente
disso. A tarefa da didática é proporcionar essas
porções de dicionário - enciclopédia
de uma forma estruturada. Como na maioria dos casos não
há tempo nem contextos autênticos suficientes para
adquirir, naturalmente e aos poucos, os conhecimentos enciclopédicos
necessários de forma indutiva, a didática tradicionalmente
tenta tomar o atalho de inverter o processo: A dedução
a partir de regras cognitivamente proporcionadas substitui a aquisição
natural mais demorada e menos dirigida(84). Nos termos de Eco: entra-se
no castelo da língua pela janela do dicionário em
vez de ser pela escadaria, o portal, os corredores e as várias
ante-salas da enciclopédia.
Já foram citados alguns exemplos de como explicar cognitivamente o conteúdo de signos dentro do contexto da língua alvo (Sonne - sol, Haus - casa, stellen/setzen/legen/gießen/geben - pôr), abstraindo dos inumeráveis registros da enciclopédia de uma tal forma, que o aluno possa fazer previsões certeiras sobre como aplicar o signo em contextos ainda não ocorridos. Eco descartou a tentativa de Pottier, de elaborar descrições de vocabulário, como não válida para fundamentar o valor do significado. Mas a sua classificação de móveis(85) serve perfeitamente para ajudar o aluno a entender, já dentro do sistema lexical alvo, as condições de uso" estudadas por Leisi.
| cadeira | |||||
| poltrona | |||||
| sofá | |||||
| escabelo | |||||
| pufe |
Assim a desvantagem do esquema para
Eco, de definir um valor com a ajuda de outro, igualmente indefinido,
torna-se virtude, na medida que nessa semiose ilimitada"
da corrente de interpretações o aluno ergue o sistema
lexical da língua alvo na sua mente. Em outras palavras,
como os elementos do eixo horizontal e vertical da grade são
solidários(86), o aluno que não sabe o significado de
/fofo/ apreende os elementos dos dois eixos em conjunto, com a
ajuda de representações visuais, normalmente fornecidos
junto em métodos de idiomas. Além disso seu conhecimento
do mundo já estabelecido (neste caso sobre os diversos
móveis) colabora no processo de decodificação(87).
Essas instruções de uso
abstratas muitas vezes podem ser dadas com visualizações,
não só reproduções (desenhos, fotos)
de objetos, mas, no caso de verbos, por exemplo, que são
difíceis de se desenhar, com esquemas simbólicos.
O verbo /wählen/ em alemão e constituído pela
constelação de ter um sujeito e várias opções,
sendo que o sujeito descarta uma parte das opções
e fica com outra. A visualização seria:
Assim o verbo /wählen/ corresponde a /eleger/, /escolher/, /votar/, /optar/, /selecionar/ e ainda /marcar/, /discar/ no telefone. Os alunos que não tiveram a explicação da lógica semântica por baixo da superfície dos signos, providenciada pelo pequeno desenho, primeiro não entendem a palavra, porque eles se esbarram nas traduções contraditórias (eles ainda não têm acesso a porções suficientemente grandes da enciclopédia!). Depois questionam a autoridade do dicionário e do professor (Como?! Não pode ser! Se é x não pode ser z!" etc.) e são desmotivados a procurar por conta própria e de maneira enciclopédica ( = indutiva) outras relações lógicas no sistema lexical da língua alvo. Por último, não conseguem estabelecer o signo na memória ativa, porque o elemento ficou fora do rizoma" lingüístico(88), fora dos caminhos disponíveis para o pensamento dentro da língua alvo.
Outro exemplo são os verbos /wechseln/
e /tauschen/ em alemão, representados no dicionário
como /trocar/, /cambiar/, /substituir/, /alternar/, /mudar/ e
/permutar/. Essas sinonímias servem grosseiramente para
decodificar o significado dos verbos numa ocorrência concreta,
fazendo a prova de substituição até conseguir
encaixar um deles mais ou menos no dado contexto(89). O problema maior
é que o dicionário não dá nenhuma
instrução para o uso ativo, que o aluno não
vai acertar antes de conhecer uma porção bastante
grande da enciclopédia - ou de ter uma abstração
didática dela, que, outra vez, pode ser dada com a ajuda
de um desenho.
/Tauschen/ (à esquerda) e definido
pela reciprocidade da ação e pela equivalência
dos objetos. Com /wechseln/ (à direita) muda o enfoque: em vez dos dois remetentes/
destinatários da ação mútua, agora
só um dos agentes, ou pontos de referência da permuta,
é enquadrado. O critério agora é que uma
coisa sai e outra entra.
A equivalência funcional é
mantida, a reciprocidade não é mais condição
necessária e o segundo agente pode estar ausente. Assim
resolvem-se todas as dúvidas de uso. /Tauschen/ para /Hemd/
(camisa) exige um parceiro disposto a me entregar sua camisa em
troca da minha, enquanto /wechseln/ significa que eu troco de
camisa para substituir a suja por uma limpa. Para /Lampe/ (lâmpada),
quando quebrada, /tauschen/ significaria que eu troco a quebrada
de lugar com uma outra, não quebrada. Aqui normalmente
só se aplica /wechseln/ para tirar a quebrada e pôr
uma nova. O pequeno esquema lógico explica também
porque no caso de /Geld/ (dinheiro) podem-se usar os dois. Com
/tauschen/ realça os aspectos da reciprocidade e equivalência:
Eu dou ao cambista em reais o equivalente do que ele me dá
em dólares. Com /wechseln/ muda o enfoque: Eu preciso de
dólares para viajar, então tiro do meu bolso os
reais (que não servirão no exterior), para substituí-los
pela equivalência em dólares. O parceiro da permuta
nesse caso não interessa.
A experiência prática mostra
que, o aluno provido desta instrução, acerta todas
as possíveis futuras ocorrências dos dois verbos,
tanto na decodificação quanto na codificação,
sem ter que passar por uma demorada fase de aquisição
de enciclopédia. Isso prova que, no campo da semântica,
a chave para o ensino não é a equivalência
do dicionário, mas sim a instrução de uso
da enciclopédia, ainda que em forma abstrata, dada na maneira
de um dicionário.

Bernstein, B.: Class, Code and Control,
London, Routledge and Kegan Paul, 1971
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