Depois de três anos no curso de Pedagogia da Universidade Federal de
Santa Catarina, aprendendo a fazer o possível para ser melhor que o
outro, ouvimos, na especialização em Educação Infantil, a palavra GRUPO.
Bem! Se levarmos em
conta nosso sistema político-econômico-educacional, diríamos que a
construção do grupo não é considerada nem no que diz respeito ao
individualismo proclamado pelo capitalismo e, muito menos, à forma de
interação que permeia a concepção tradicional de educação.
Entretanto, como não
estamos aqui para apenas ‘reproduzir o que está posto’, está aberto o
debate: A importância do grupo para a formação de educadores e para seu
trabalho na Educação Infantil. Este debate vai dar o que falar, porque o
grupo vai existir "para mexer no nosso saber que parecia tão certo, para
colocar-nos dentro das diferenças e acompanhar como vamos reagir a elas.
Grupo vai desestabilizar, criar ansiedade. Mas grupo que dará guarita,
apoio, subsídio e direção no novo a construir" (Davidi, 1994, p.16).
Além disso diríamos
que o grupo irá mexer com nossa autoridade e autoritarismo, com nossa
forma de ser no mundo, com nosso afetivo, com a nossa (minha) maneira de
achar que temos sempre ‘razão’ no que defendemos. Construir/constituir o
grupo, nos (me) deixará aflitos, apreensivos, nervosos, felizes,
ansiosos... O grupo mexerá com as contradições, com a dialética, com a
poética...
Mas o que é grupo?
Segundo
Pichon-Riviére (apud Freire, 1994, p.17) grupo são pessoas que se reúnem
com necessidades semelhantes para a realização de uma tarefa específica.
Porém, "mesmo tendo um objetivo mútuo, cada participante é diferente.
Tem sua identidade".
Assim, cada indivíduo
que constitui/constituirá o grupo tem sua identidade, é um na
interlocução com o outro.
EU VEJO
| Eu vejo longe de mim o outro
Eu o vejo perto
Eu o vejo aqui
Eu não o vejo!
Até onde o enxergo?!
No meu olhar distante/perto
Ansioso/furioso
Curioso?!
|
Com o outro me analiso
Me justifico, me avalio
Mas posso não querer isso
E na minha, ou na dele, identidade
Não o ver, não o pensar
E assim, eu
Na minha pobre individualidade
Não enxergar, nem eu, nem o outro
E ficar só, num pseudo-conhecer o mundo! |
Analisando estas colocações,
podemos ver que nós, educadores, caminhamos há muito tempo numa concepção de
conhecimento enquanto apenas produto, onde o ensinar tem um fim em si mesmo e, só pode
ser "transmitido" por alguém que "sabe" para alguém que "não
sabe".
Não obstante, ao discutirmos sobre
grupo, adotamos uma posição/visão de conhecimento enquanto processo, construído por e
para "todos". Colocamos este todos entre aspas, porque sabemos que o acesso ao
espaço de vivência do grupo continua sendo restrito, pois a concepção tradicional de
educação ainda encontra-se fortemente enraizada desde a educação infantil até o
ensino superior e, diríamos, para além deles.
Mas como ser/construir o grupo?
Segundo Weffort (1994), há dois tipos de
grupos: o primário, que é a família; e o secundário, que são
grupos de estudo, trabalho, instituições, etc. Nestes grupos, segundo a autora,
encontramos uma forma de ser, de estar no mundo, desempenhando papéis, que se mantém
muitas vezes ao longo de nossa vida.
Entretanto, os papéis desempenhados
pelos sujeitos que constituem o grupo, não podem servir para educadores/observadores,
como rótulos, não podem servir para estereotipar sujeitos, pois em cada momento de
trabalho, de vivência do grupo, novas formas de ser e de estar podem surgir, modificando
os olhares.
Outra característica do grupo
apresentada por Weffort (1994), são os movimentos de construção do grupo. Para ela,
existem três movimentos básicos neste processo de construção.
O primeiro movimento caracteriza-se pela
busca da homogeneidade, pela procura
por iguais. As diferenças não são
enfrentadas, mas ocultadas, as relações idealizadas, mitificadas. Neste sentido, o
"desafio do educador nesse primeiro movimento é instigar o exercício do conflito,
na construção das diferenças (para construir a individualidade, a identidade) e, ao
mesmo tempo, em possibilitar a instrumentalização do temor do desconhecido, até que sua
mediação como mito não seja mais necessária" (Weffort, 1994, p.30).
No segundo movimento, busca-se a queda do
mito, a diferenciação, a autonomia. Que irá gerar conflito, reconhecendo a
não-igualdade, pois cada participante se reconhece, diferentemente, como grupo.
No terceiro movimento, que já se inicia
com a morte do mito, a "afirmação passa a ser: eu não sou você, você não é eu;
nós somos um grupo enquanto eu consigo ser mais eu (diferente), vivendo com você, e
você ser mais você (diferente), vivendo comigo" (Weffort, 1994, p.31).
Weffort (1994, p.32), afirma ainda que a
presença do educador é indispensável em todos estes movimentos, no sentido de intervir,
encaminhar, devolver, limitar e acompanhar os passos desse processo. Para a autora
"todo grupo depende de uma autoridade para a construção do seu exercício
democrático".
Desse modo, notamos a importância da
construção do grupo na formação de educadores, como é o nosso caso na disciplina
Cotidiano e Prática Pedagógica na Educação Infantil, pois é na vivência da
experiência de construção do grupo que podemos ver o quanto é difícil e como temos
que ter o compromisso com esse prática, que foca as crianças e as interações
estabelecidas entre elas e com o educador.
Chegamos então a um outro ponto: Se o
grupo precisa de um educador, há necessidade de construir grupo na Educação Infantil?
Se considerarmos que para construir o
grupo é necessário que tenhamos: um educador com autoridade, que faça a leitura das
necessidades do grupo; vontade de escutar o outro; rotina de trabalho; constância de
atividades (construção de referências); articulação tempo/espaço; planejamento
(identificando a intencionalidade); espaço organizado para as trocas, as interações,
etc. Perguntamos novamente: É necessário construir o grupo na Educação Infantil?
Acreditamos que sim!
Neste sentido, contrapondo teoria e
práticas, refletindo a respeito delas, afirmamos que:
O grupo não se forma
Amontoando todos; |
A rotina não faz sentido
Se todo dia é tudo sempre igual |
O ritmo é o de todos, mas...
O de cada um, constituindo o grupo; |
A roda não se efetiva
Sem significado, sem grupo; |
O registro precisa servir para
A reflexão, a avaliação, a mudança; |
O educar e o cuidar na Educação
Infantil
Estão ligados, juntos, atados; |
O espaço de vivência precisa
Ter sentido, buscar identidades; |
A educação é encantadora
Quando buscamos a transformação e não a estagnação! |
A criança...
Um sujeito particular, histórico, a aprender e a nos ensinar... |
O educador, mediador, essencial
É quem reflete, observa, lê, cuida e educa... |
Todos estes...
Num rodar, num girar, num pulsar
Na constância do inconstante
Vivendo...
No encantador mundo da Educação Infantil! |
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREIRE, Madalena. Aspectos pedagógicos do construtivismo
pós-piagetiano-II. In: GROSSI, Ester & BORDIN, J. (org.). Construtivismo
pós-piagetiano. Petrópolis - RJ: Vozes, 1993. (p.162-167).
SILVA, Claudinéia A. e CUNHA, Cristiane. O trabalho pedagógico na
creche: entre limites e possibilidades. In: OSTETTO, Luciana
E. (org.). Encontros e encantamentos na educação infantil: Partilhando
experiências de estágios. Campinas/SP: Papirus, 2000. (p.31-49).
WARSCHAUER, Cecília. A roda e o registro; uma parceria entre
professor, aluno e conhecimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1993. (p.46-69).
WEFFORT, Madalena Freire et alii. Grupo; indivíduo, saber e
parceria: malhas do conhecimento. São Paulo: Espaço
Pedagógico, 1994. (p.13-32).
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