Periodicidade Semestral - Número 2 - Jul./Dez. 2000
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SEÇÃO ARTIGOS

 

   

O "EU" E O "OUTRO": CONSTRUINDO IDENTIDADES NO DESAFIO DO GRUPO

Fabrícia, Leziani, Carolina, Dinéia e Ana Claúdia

 

Depois de três anos no curso de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Catarina, aprendendo a fazer o possível para ser melhor que o outro, ouvimos, na especialização em Educação Infantil, a palavra GRUPO.

Bem! Se levarmos em conta nosso sistema político-econômico-educacional, diríamos que a construção do grupo não é considerada nem no que diz respeito ao individualismo proclamado pelo capitalismo e, muito menos, à forma de interação que permeia a concepção tradicional de educação.

Entretanto, como não estamos aqui para apenas ‘reproduzir o que está posto’, está aberto o debate: A importância do grupo para a formação de educadores e para seu trabalho na Educação Infantil. Este debate vai dar o que falar, porque o grupo vai existir "para mexer no nosso saber que parecia tão certo, para colocar-nos dentro das diferenças e acompanhar como vamos reagir a elas. Grupo vai desestabilizar, criar ansiedade. Mas grupo que dará guarita, apoio, subsídio e direção no novo a construir" (Davidi, 1994, p.16).

Além disso diríamos que o grupo irá mexer com nossa autoridade e autoritarismo, com nossa forma de ser no mundo, com nosso afetivo, com a nossa (minha) maneira de achar que temos sempre ‘razão’ no que defendemos. Construir/constituir o grupo, nos (me) deixará aflitos, apreensivos, nervosos, felizes, ansiosos... O grupo mexerá com as contradições, com a dialética, com a poética...

Mas o que é grupo?

Segundo Pichon-Riviére (apud Freire, 1994, p.17) grupo são pessoas que se reúnem com necessidades semelhantes para a realização de uma tarefa específica. Porém, "mesmo tendo um objetivo mútuo, cada participante é diferente. Tem sua identidade".

Assim, cada indivíduo que constitui/constituirá o grupo tem sua identidade, é um na interlocução com o outro.

EU VEJO

 

Eu vejo longe de mim o outro

Eu o vejo perto

Eu o vejo aqui

Eu não o vejo!

Até onde o enxergo?!

No meu olhar distante/perto

Ansioso/furioso

Curioso?!

 

 

Com o outro me analiso

Me justifico, me avalio

Mas posso não querer isso

E na minha, ou na dele, identidade

Não o ver, não o pensar

E assim, eu

Na minha pobre individualidade

Não enxergar, nem eu, nem o outro

E ficar só, num ‘pseudo-conhecer’ o mundo!

Analisando estas colocações, podemos ver que nós, educadores, caminhamos há muito tempo numa concepção de conhecimento enquanto apenas produto, onde o ensinar tem um fim em si mesmo e, só pode ser "transmitido" por alguém que "sabe" para alguém que "não sabe".

Não obstante, ao discutirmos sobre grupo, adotamos uma posição/visão de conhecimento enquanto processo, construído por e para "todos". Colocamos este todos entre aspas, porque sabemos que o acesso ao espaço de vivência do grupo continua sendo restrito, pois a concepção tradicional de educação ainda encontra-se fortemente enraizada desde a educação infantil até o ensino superior e, diríamos, para além deles.

Mas como ser/construir o grupo?

Segundo Weffort (1994), há dois tipos de grupos: o primário, que é a família; e o secundário, que são grupos de estudo, trabalho, instituições, etc. Nestes grupos, segundo a autora, encontramos uma forma de ser, de estar no mundo, desempenhando papéis, que se mantém muitas vezes ao longo de nossa vida.

Entretanto, os papéis desempenhados pelos sujeitos que constituem o grupo, não podem servir para educadores/observadores, como rótulos, não podem servir para estereotipar sujeitos, pois em cada momento de trabalho, de vivência do grupo, novas formas de ser e de estar podem surgir, modificando os olhares.

Outra característica do grupo apresentada por Weffort (1994), são os movimentos de construção do grupo. Para ela, existem três movimentos básicos neste processo de construção.

O primeiro movimento caracteriza-se pela busca da homogeneidade, pela procura

por iguais. As diferenças não são enfrentadas, mas ocultadas, as relações idealizadas, mitificadas. Neste sentido, o "desafio do educador nesse primeiro movimento é instigar o exercício do conflito, na construção das diferenças (para construir a individualidade, a identidade) e, ao mesmo tempo, em possibilitar a instrumentalização do temor do desconhecido, até que sua mediação como mito não seja mais necessária" (Weffort, 1994, p.30).

No segundo movimento, busca-se a queda do mito, a diferenciação, a autonomia. Que irá gerar conflito, reconhecendo a não-igualdade, pois cada participante se reconhece, diferentemente, como grupo.

No terceiro movimento, que já se inicia com a morte do mito, a "afirmação passa a ser: eu não sou você, você não é eu; nós somos um grupo enquanto eu consigo ser mais eu (diferente), vivendo com você, e você ser mais você (diferente), vivendo comigo" (Weffort, 1994, p.31).

Weffort (1994, p.32), afirma ainda que a presença do educador é indispensável em todos estes movimentos, no sentido de intervir, encaminhar, devolver, limitar e acompanhar os passos desse processo. Para a autora "todo grupo depende de uma autoridade para a construção do seu exercício democrático".

Desse modo, notamos a importância da construção do grupo na formação de educadores, como é o nosso caso na disciplina Cotidiano e Prática Pedagógica na Educação Infantil, pois é na vivência da experiência de construção do grupo que podemos ver o quanto é difícil e como temos que ter o compromisso com esse prática, que foca as crianças e as interações estabelecidas entre elas e com o educador.

Chegamos então a um outro ponto: Se o grupo precisa de um educador, há necessidade de construir grupo na Educação Infantil?

Se considerarmos que para construir o grupo é necessário que tenhamos: um educador com autoridade, que faça a leitura das necessidades do grupo; vontade de escutar o outro; rotina de trabalho; constância de atividades (construção de referências); articulação tempo/espaço; planejamento (identificando a intencionalidade); espaço organizado para as trocas, as interações, etc. Perguntamos novamente: É necessário construir o grupo na Educação Infantil? Acreditamos que sim!

Neste sentido, contrapondo teoria e práticas, refletindo a respeito delas, afirmamos que:

O grupo não se forma

Amontoando todos;

A rotina não faz sentido

Se todo dia é tudo sempre igual

O ritmo é o de todos, mas...

O de cada um, constituindo o grupo;

A roda não se efetiva

Sem significado, sem grupo;

O registro precisa servir para

A reflexão, a avaliação, a mudança;

O educar e o cuidar na Educação Infantil

Estão ligados, juntos, atados;

O espaço de vivência precisa

Ter sentido, buscar identidades;

A educação é encantadora

Quando buscamos a transformação e não a estagnação!

A criança...

Um sujeito particular, histórico, a aprender e a nos ensinar...

O educador, mediador, essencial

É quem reflete, observa, lê, cuida e educa...

Todos estes...

Num rodar, num girar, num ‘pulsar’

Na constância do inconstante

Vivendo...

No encantador mundo da Educação Infantil!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Madalena. Aspectos pedagógicos do construtivismo pós-piagetiano-II. In: GROSSI, Ester & BORDIN, J. (org.). Construtivismo pós-piagetiano. Petrópolis - RJ: Vozes, 1993. (p.162-167).

SILVA, Claudinéia A. e CUNHA, Cristiane. O trabalho pedagógico na creche: entre limites e possibilidades. In: OSTETTO, Luciana E. (org.). Encontros e encantamentos na educação infantil: Partilhando experiências de estágios. Campinas/SP: Papirus, 2000. (p.31-49).

WARSCHAUER, Cecília. A roda e o registro; uma parceria entre professor, aluno e conhecimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993. (p.46-69).

WEFFORT, Madalena Freire et alii. Grupo; indivíduo, saber e parceria: malhas do conhecimento. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1994. (p.13-32).


           E-mail: zeroseis@ced.ufsc.br


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