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Periodicidade Semestral - Número 2 - Jul./Dez. 2000
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SEÇÃO RELATOS  

 

"RELATO DE EXPERIÊNCIA NO COTIDIANO

DA EDUCAÇÃO INFANTIL"

Anotado pelas acadêmicas: 
       Eliane M. M. Madureira 
       Eveland Deiconclili Caetano
       Fabiana Meurer Silvino

Em uma tarde de sol, caminhávamos nós na “floresta” com as crianças e o professor. A “floresta”, assim denominada pelas crianças, nada mais era do que um terreno situado ao lado da Creche "Fermínio Francisco Vieira", no Córrego Grande, bairro de Florianópolis, onde um grupo de estagiárias está vivenciando sua prática.
Entre borboletas, árvores, folhagens e gravetos, o grupo de vinte e seis crianças, com idade entre cinco e seis anos, seguia junto com as estagiárias e o professor numa pequena trilha.

- Cuidado com a cobra! Não se esqueçam de pulá-la!

Grita o professor causando um grande alvoroço entre as crianças. Eis que de repente surge por entre a folhagem um grande descampado. Livres como pássaros, as crianças começaram a correr em direção ao morro. Elas queriam trepar numa árvore localizada na subida do morro. O professor deixou que o grupo satisfizesse a sua vontade.

- Teria sido só está ?

Não, o professor teve que entrar no mato para pegar uma carcaça de bicicleta abandonada que estava chamando atenção das crianças.

Ufa! Depois de tantas curiosidades começa mais uma atividade.

- Atividade, que atividade?

- Esqueceu que estamos numa aula de Educação Física! Educação Física na Educação Infantil? Que baita!!!
Após muita correria, jogos e brincadeiras que trabalharam com o tato e a audição a das crianças, o grupo se reuniu para  retornar à creche. No caminho de volta, o professor pegou uma borboleta, entre algumas flores, a fim de mostrar suas anteninhas para as crianças e depois a liberou.

- “Véio” Zuza, “véio” Zuza!! - Chamam as crianças.

- Onde estará o “véio” Zuza? - Pergunta o professor. E como um toque de mágica, após sair detrás de uma árvore com um pedaço de pau na mão como se fosse uma bengala, surge o velho Zuza. Que curtição! Todos queriam abraçar, conversar e brincar com o velho Zuza que em alguns minutos depois se transformou novamente no professor e depois noutro personagem.

Lá estávamos nós, vivenciando esse momento mágico, admiradas com o envolvimento, a sensibilidade e o desempenho do professor. Quem será ele? Qual será sua história?

Numa conversa informal, descobrimos que o professor trabalha com a Educação Infantil há dois anos, e com o Ensino Fundamental há vinte anos.
 Sua experiência com as crianças com as crianças de 0 a 6 seis anos de idade se deu a partir da convivência com elas e com as professoras da creche. Conhecer suas necessidades, vontades e maneira de agir foi um longo caminho de observação e reflexão.

Sua prática se consolidou a partir da observação daquilo que as crianças necessitavam, dentro é claro de suas especificidades.
Aulas de Educação Física para as crianças de 2 e 3 anos de idade? Como? Isso é possível? Entre relatos e afirmações descobrimos que sim, que tudo é possível quando não limitamos as crianças, pois elas são capazes de explorar de forma significativa as atividades propostas, são inteligentes, espertas e surpreendentes, sempre aprendemos com elas.
Na tentativa de aprofundar a questão da importância da Educação Física na Educação Infantil, conversamos com a docente Cristiane Ker de Melo, professora da disciplina Recreação e Lazer – Centro de Desportos da UFSC.
Na conversa com a professora, demonstramos o relato e desenvolvemos algumas discussões fundamentais. Por exemplo, a surpresa diante da forma como professor de Educação Física da Creche do Córrego Grande trabalha com seus alunos. Surpresa, porque embora a criança seja um sujeito repleto de movimento, de expressão corporal e de sentidos aguçados, o trato desses sentidos em algumas ocasiões, não tem recebido a atenção devida. Talvez pelo fato da Educação Física e a educação cognitiva da criança serem pensados como processos distintos, desvinculados. Como se o desenvolvimento físico e cognitivo não tivessem relação. A criança não é só o cognitivo nem tampouco um corpo a ser adestrado mas sim um sujeito de multiplas dimensões que deseja descobrir o mundo. 

O adestramento do corpo continua muito presente na Educação Física, principalmente para os profissionais que tenham por referência o exercício de sua prática voltado para o lado técnico e competitivo, e não para a exploração da expressão corporal através da ludicidade, da criatividade, do deixar se envolver experimentando novos valores, descobrindo novas possibilidades. 
E o que é a criança senão imaginação, movimento e alegria! Sabemos que a criança é um ser social que nasce com capacidades afetivas, emocionais e cognitivas. Tem desejo de estar próxima às pessoas e é capaz de interagir e aprender com elas. Também sabemos que a medida que crescem, vão desaprendendo a perceber certa coisas como por exemplo, a anteninha da borboleta, etc. O mundo se torna sério, a brincadeira perde o lugar para a racionalidade. A criança precisa moldar-se para essa nova realidade. Pensando nisso é que devemos proporcionar para as crianças cada vez mais momentos prazerosos em que elas se sintam seguras para se expressar. Momentos que proporcionem uma amplitude de experiências, que possibilitem espaço e tempo para a produção da cultura infantil.  E isso não é só um desafio para o professor de Educação Física, mas sim para todos os profissionais que compreenderem a criança  como “ser criança”, que  tem o direito de viver sua infância sendo tratada como um sujeito de direitos.

 

SUGESTÃO DE LEITURA:

ROCHA, Ruth. Quando a escola é de vidro. IN: Admirável mundo louco. Rio de Janeiro: Salamandra, 1986.
 


           E-mail: zeroseis@ced.ufsc.br


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