Freire, Paulo (1993). Professora sim, tia não: Cartas a quem ousa
ensinar. São Paulo: Olho D’água, 127 p. Review by Elizete
Delima Carneiro and Mara Cristine Maia dos Santos (UNILASALLE)
De:
(In: La Salle: Revista de Educação;, Ciência e Cultura/Centro
Educacional La Salle de Ensino Superior (CELES), v. 4, n. 1 (Outono de 1999).
Reproduced with permission.)
POR: Anatália Matos
Freire introduz Professora sim, tia não procurando, através
do enunciado, exigir um primeiro empenho à compreensão e entendimento
não apenas do significado de cada uma das palavras que compõem
o próprio enunciado, mas também sobre "o que elas ganham e
perdem, individualmente, enquanto inseridas numa trama de relações"
(p. 9). Assim, dividindo o enunciado em três blocos (a) professora,
sim, (b) tia, não e (c) cartas a quem ousa ensinar, enfatiza a tarefa
do ensinante, que requer comprometimento e gosto "de querer bem não
só aos outros, mas ao próprio processo que ela implica" (p.
9) e sobre a impossibilidade de ensinar sem ousar. Ousar para "falar em
amor", para que estudamos, aprendemos, ensinamos e conhecemos com o nosso
corpo inteiro (...) para jamais dicotomizar o cognitivo do emocional (...)
para ficar ou permanecer ensinando por longo tempo nas condições
que conhecemos, mal pagos, depreciados e resistindo ao risco de cair vencidos
pelo cinismo (p. 10).
Em sua análise sobre Professora, sim, tia, não, apresenta
sobre tudo duas razões. De um lado o de evitar uma compreensão
distorcida sobre a tarefa profissional do professor. De outro, o de ocultar
a ideologia repousada na falsa identificação.
A tentativa de reduzir a professora à condição de
tia é uma inocente armadilha ideológica em que, tentando-se
dar a ilusão de adocicar a vida da professora, o que se tenta é
amaciar a sua capacidade de luta, entretê-la no exercício de
tarefas fundamentais (p.25).
Segue sua análise através das "cartas a quem ousa ensinar",
expondo questões fundamentais sobre os que fazeres acima de tudo
político-pedagógicos. Dessa forma, convida a questionar e
a pensar sobre o ato de escrever puramente mecânico e o ato de pensar
ordenadamente.
O texto, "embora simples", tem a intenção de mostrar a tarefa
do ensinante que é também a de ser aprendiz, sendo preciso
para isso ousar, o aprender a ousar, para dizer não à burocratização
da mente a que nos expomos no dia-a-dia. Segundo Freire, é preciso
ousadia ao próprio fato de se fazer professor, educador, que se vê
responsável profissionalmente pela formação permanente.
Nesse sentido, não se quer desmoralizar ou desvalorizar a figura
da tia, mas questionar a desvalorização profissional, que
vem acontecendo há décadas, de transformar a professora num
parente postiço.
A posição de luta democrática que os professores testemunham
a seus alunos, dentro dos valores da democracia apresenta-se em três
exigências: que a luta jamais se transforme em luta singular e individual,
que se desafiem os órgãos da categoria para a luta e que haja
sempre a formação permanente e que acima de tudo o educador
esteja aberto à avaliação da prática.
Como educadores e educadoras somos políticos, fazemos política
ao fazer educação. Se sonhamos com a democracia, que lutemos,
dia e noite, por uma escola em que falemos aos e com os educandos, para
que, ouvindo-os, possamos ser por eles ouvidos também (p. 92).
Vale a pena ler as cartas e refletir sobre elas, dando atenção
especial a cada uma delas, pois a leitura crítica dos textos e do
mundo tem a ver com mudança em processo. É preciso, então,
compreender o processo do estudar, do ler, do observar, do reconhecer, do
ensinar e do fazer.
É preciso que os educandos, experimentando-se criticamente na tarefa
de ler e de escrever, percebam as tramas sociais em que se constituem e
se reconstituem a linguagem, a comunicação e a produção
do conhecimento, fazendo da escola espaço de reflexão e conscientização.
"A escola, em que se pensa, em que se atua, em que se cria, em que se fala,
em que se ama, se adivinha a escola que diz sim à vida.. E não
a escola que emudece e me emudece" (sic) (p.63).
Paulo freire ainda convida a um aprofundamento sobre a educação
nos aspectos quantitativos e qualitativos; abordando também o problema
dos salários dos professores, que são muitas vezes insignificantes,
refletem a imagem de sua desvalorização pela sociedade. Surge
dessa forma a necessidade de esclarecer a opinião pública
sobre a situação em que se encontra o magistério. "Nenhuma
sociedade se afirma sem o aprimoramento de sua cultura, da ciência,
da pesquisa, da tecnologia, do ensino. Tudo isso começa com a pré-
escola" (p. 53).
As cartas também resgatam algumas das qualidades indispensáveis
aos educadores e educadoras. Alguns questionamentos se fazem presentes,
sobre os quais vale refletir com a sociedade: que é ensinar? que
é aprender? que compreensão temos de mundo? fazemos política
ao fazer educação? o diferente de nós é superior
ou inferior a nós? como deve ser a escola democrática?
Ao ler as cartas, é importante sabermos que o saber tem tudo a ver
com o crescer, e que o crescer insere os sujeitos em um movimento dinâmico...
"A imobilidade no crescimento é enfermidade e morte" (p. 125). "O
saber tem tudo a ver com o crescer. Mas é preciso, absolutamente preciso,
que o saber de minorias dominantes não proíba, não
asfixie, não castre o crescer das imensas maiorias dominadas" (p.
127).
Enfim, nessa obra, Paulo Freire vem a enfatizar a importância de
que professores se conscientizem e se desvencilhem da ideologia que manhosamente
quer distorcer sua tarefa profissional. Assim, esclarece, orienta e incentiva
professoras e professores a assumirem o papel político-social que
desempenham. Sendo a educação ato político, requer comprometimento
tanto na luta política, quanto nas reivindicações do
corpo docente e na formação de cidadãos realmente críticos
e atuantes.