
Periodicidade semestral
- Número 16 - Julho/Dezembro
de 2007
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SEÇÃO RESENHAS |
A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
Markus Zusak
A Menina que Roubava Livros (The Book Thief, no original) é um romance juvenil do escritor australiano Markus Zusak, publicado em 2006. No Brasil, sua obra só foi lançada em Março de 2007 pela editora Intrínseca, traduzido por Vera Ribeiro, e até o presente momento já vendeu nacionalmente mais de 105 mil exemplares. Dentre os nove livros que o autor tem publicado, somente dois livros possuem tradução em português: Eu sou o Mensageiro e A Menina que Roubava Livros.
A resenha que segue abaixo, foi elaborada por Leandro Diniz, estudioso autônomo, apaixonado por literatura.
A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
A morte narra, a gente lê. O narrador não é onisciente, mas é bem mais capaz que
nós. Ele é a Morte. Sim essa que nos leva ou retira de nossos corpos. Agradável
ler o que ela nos entrega, o que escolhe ser o importante. Essa história da
menina... essa história!
Estamos fartos, exaustos e lotados
até a última potência de nossos seres de retratos da Segunda Guerra. Há filmes,
livros, rios, revistas e demais publicações sobre o assunto e ele nunca se
esgota, sempre se transborda. Não pela falta de assunto, mas por nossa óbvia
canseira. Estamos cansados de ler, ouvir e saber de relatos, principalmente da
Segunda Guerra.
Mas espere aí. É a Morte quem narra,
a menina é abandonada pela mãe comunista, e o irmão morre em seus braços, isso
para começar o livro. Enfim, sabemos que o livro não vai ser alegre. Lógico e é
permeado por reflexões da própria ceifadora.
O livro é, no final, sobre a
inocência humana, profunda na criança, superficial no adulto. Seja na hora de
aprender a ler, seja na hora de ensinar, seja na hora de ter esperanças contra
todas as possibilidades e seja na hora de tentar viver no meio do nada, do caos.
A ladra de livros se movia, entre um
furto e outro, com o peso nas costas. Um peso muito grande, muitas coisas,
muitos sofrimentos, e nada melhor que a inocência para livrá-la de definhar, de
desistir de lutar, ela tinha uma razão. As palavras.
Inocência e as palavras, é tudo o que
o livro é. Seja na presença delas, seja na falta. Vezes faltam palavras para se
dizer o que se quer, vezes se diz demais. Vezes falta maturidade para não ser
quem se é, e vezes sobra inocência para ser somente quem se é. Se isso foi
compreendido, o livro é delicioso. Triste, mas delicioso, diria deliciosamente
triste.
Somos eu e você ali no livro. No
virar das páginas, uma carta de amor que você escreveu, que foi lida no silencio
da solidão do outro. Uma vontade agarrada e jogada fora por falta de coragem.
Pequenas ações, pequenas verdades que vão para o túmulo com a gente, esses
momentos de puro humanismo... são os que importam, são os mais miúdos de todos.
E o livro é permeado deles.
Ajuda muito a fluidez da escrita, a
intermitência do tamanho das frases e parágrafos nos dá o ritmo que devemos ler
e compreender o que está sendo dito. Uma frase simples para dizer algo simples.
Uma explicação para algo que é simples por fora, mas complexo internamente. A
Morte escolhe o que relatar e como, de seu ponto de vista, de seu olhar sobre
aquela coisa toda, os seres humanos a tocam, ela toca os seres humanos, quando
ela os toca, eles já não são mais seres e enquanto os seres são, ela não os
consegue tocar.
Ela é simpática, guardou o livro da
ladra e contou a história dela, não a história inteira, mas o pedaço crucial, o
momento de maior dificuldade. Aprender a ler em meio a Guerra, guardar segredos
perigosíssimos, conviver com pessoas tão díspares, roubar livros, a pequena
Liesel é digna de nota, e a Morte sabia disso.
A vida é miserável, o clima é
variado, as adversidades imensas, mas aquelas pessoas conseguem continuar
vivendo, convivendo e sobrevivendo. São três coisas distintas, muito bem
descritas ao longo da história.
Sobreviver. Tempos difíceis, judeus
são escorraçados e o nível de vida cai muito, detalhe para que na rua Himmel o
nível já não era bom antes. A comida era racionada, e cada um passava o tempo da
melhor maneira possível, inclusive para disfarçar a fome. Alguns enrolavam
cigarros, outros davam safanões em todos que viam, outros roubavam coisas.
Conviver. Ações e reações. Muitas das
vezes são elas que nos enaltecem, muitas outras são elas que nos derrubam,
dão-nos rasteiras e, além disso, temos que continuar a conviver com elas e com o
mundo, e isso se torna principalmente difícil no ambiente proposto pela
história.
Viver. Essa sim a mais difícil e
complicada de todas. Nos breves momentos em que as pessoas conseguiam esquecer o
que os rodeavam e quem as rodeava, em um momento elas conseguiam viver, seja
tocando um acordeão, seja escrevendo páginas de presente a outrem, seja
estimando a vida de outra, seja roubando livros. Essas pequenas coisinhas nos
levam de um dia a outro.
O livro não nos faz apreciar mais
àquelas pessoas por estarem na situação que estão. Cada situação é única e as
pessoas se viram como podem para poder sobre e conviver, buscando os momentos da
vida. Mas sim nos faz ver como cada universo humano, cada pessoinha, é um
turbilhão de vetores de todas as naturezas e muitas vezes fazemos coisas,
vivemos coisas, que são demais para nós mesmos, às vezes.
Mesclando formas de narrativa
diversas, inserindo histórias na história, elementos figurativos e demais
variáveis, nos dá uma visão toda particular da mutiplicidade de formas a que se
pode expressar o que se quer dizer e se uma história dentro da história seria um
elemento plausível ao longo da narrativa ela é usada para passar a mensagem
desejada pela própria história inteira.
A certa altura a Morte, sim ela
mesma, diz o seguinte “Os seres humanos me assombram”. Se a Morte diz isso, é
porque a coisa realmente é mais estranha que parece. Geralmente a morte nos
assombra de modo bizarro, e praticamente tudo que fazemos, fazemos para escapar
da morte, mas como visto, como lido, a morte nunca nos escapa ela sempre vai nos
encarar face a face e sempre perdemos, essa é a graça da vida e a desgraça dela
mesma. Praticamente tudo não tem sentido, já que morremos. E por morrermos tudo
têm que ter um sentido, afinal somo humanos, meros humanos tentando passar de um
dia a outro da melhor maneira possível. Mas no fim, quer ver a morte? “Olhe no
espelho”.
Para conferir outras resenhas acesse: http://recantodasletras.uol.com.br
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